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BRUMADINHO... TAMBÉM É DENTRO DA GENTE

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Brumadinho... também é dentro de nós.

 

Córrego Feijão... porque nessas terras, em outras eras, por lá passavam carros de bois transportando feijão. Reza o causo mineiro, que um dia o carro virou e o feijão espalhado, germinou e cresceu nas margens do riacho. Porque a vida gera vida.

Mas agora não nasce mais nada, nas margens do Córrego Feijão, porque os rejeitos da exploração arrasaram as margens, destruíram vidas e muitas formas de vida.

Há um preço, quando alteramos as Leis que regem a vida, no Universo, na Natureza e dentro de nós mesmos.

 

Brumadinho... também é dentro de nós. E Brumadinho das Minas Gerais, é a triste parábola do Brumadinho das nossas minas interiores e do córrego Feijão que flui dentro de nós.

Há córregos e matas e cachoeiras e montanhas e lagos e rios dentro de nós, como há tudo isso, em beleza exuberante, nas terras das Gerais. Há montanhas e vales... e uma Vale, tanto em Minas Gerais, como dentro de nós.

Há uma Essência que somos, o melhor de nós mesmos, a natureza da nossa natureza, a centelha divina que somos de origem, a imagem de Deus que somos, como um espelho onde se pode ver e experienciar o Sagrado. É o espaço de paraíso que nos habita e que nós somos, porque nos foi dado, em abundância e de forma gratuita. Esse Jardim do Éden que nos habita, está em comunhão com todas as centelhas divinas que habitam todos os seres humanos e todas as criaturas, aqueles veios de ouro ou fluxos de vida que interligam tudo e todos, porque Somos Todos Um.

Dentro de nós, como nas paisagens encantadoras das Minas Gerais, há paraísos de Serenidade porque tudo está perfeito do jeito que é e mesmo nossas imperfeições encontram lugar na Perfeição de Deus; paraísos de Terra Fértil que gera vida em abundância porque a Providência Divina cuida de nós e de tudo e de todos; paraísos de Prazer autêntico e verdadeiro e gratuito porque Alguém está por trás de tudo e tudo encaminha para o bem gerando Harmonia; paraísos de Equanimidade ou equilíbrio emocional de quem tem a alma saciada pela vida que vem da Origem e nos faz únicos e especiais; paraísos de Onipresença e Transparência de energia amorosa abundante que flui e transborda na Liberalidade generosa; paraísos de Coragem como intuição guiando a vida porque conosco está Alguém maior e mais forte que nos deixa confiantes; paraísos de Sabedoria como prazer de saborear a vida quando se faz parte de um Plano divino dentro do qual se encontra uma missão; paraísos de Inocência como ausência de maldade quando em tudo se encontra Verdade; paraísos de Ação Certa como estado diligente que permite estar inteiros no presente e falar e fazer o que em cada momento precisa ser feito ou falado por saber que tudo é Amor e tudo em nós é amorosidade. Reflexos do Paraíso, aquarelas de Essência, centelhas divinas, Deus em nós e nós em Deus, nós e a Natureza como reflexos divinos ou espelhos onde se pode ver e experimentar Deus.

Mas a gente rompeu as conexões e se desconectou do Uno, explorou e sugou e vendeu os veios de ouro e matou os córregos de vida que geravam vida dentro da gente e em todo o universo. Saímos do Uno. Precisamos voltar ao Uno, antes que as barragens de rejeitos rebentem dentro de nós e destruam a vida e muitas vidas.

Também nós inventamos de minerar e, como nas terras das Gerais, encontramos na exploração de nossos recursos naturais o nosso nome, a nossa identidade. Em vez de saborear e curtir e compartilhar a riqueza que em nós habita, nos deixamos seduzir pelo Ego da  ganância ou pela ganância do Ego e exploramos e vendemos o melhor de nós mesmos, para sermos aceitos e admirados, valorizados, queridos ou temidos, porque não valorizamos a riqueza do que somos e nos deixamos enganar pelas carências que nos enganam. Corre ouro nas nossas veias... mas  deixamos que o explorassem ou  o vendemos a troco de purpurina.

Vendemos a Serenidade para sermos aprovados como pessoas corretas. Trocamos a Humildade, o húmus - terra fértil que somos, para mendigar migalhas de amor, agradando aos outros. Demos a Veracidade do prazer autêntico, gratuito e genuíno em troca de sermos vistos com admiração, na ilusão que confunde aplauso com amor. Vendemos a Equanimidade da alma saciada, da satisfação emocional, pela busca de emoções fortes. Trocamos a abundância da energia amorosa que em nós transparece e transborda, pela mesquinhez da teoria da escassez que retém a vida por ter medo da vida em abundância. Vendemos a Coragem, a intuição como voz do coração, para ficarmos escravos dos fantasmas cerebrais que nossas projeções criaram e o medo de ser livres nos fez sentir orgulho de sermos escravos. Vendemos o prazer de saborear a vida assumindo nossa missão dentro do Plano Divino da Criação, pelo prazer virtual e fugaz dos nossos planejamentos egoístas, para fugir do sofrimento que nem sabemos o que é. Demos de bandeja a nossa Inocência - a bondade de um coração imenso, em troca da imagem de força e de respeito, por acharmos que tudo e todos estão contra nós. Deixamos que levassem de graça o Amor-Valor que havia em nós e fazia amoroso tudo o que de nós brotava, e nos contentamos em ficar quietos e calados, engolindo sapos, esquecidos de nós mesmos e do nosso valor.

Vendemos as nossas riquezas, ou as demos de graça e até achamos bom, por nos contentarmos em viver de qualquer jeito, satisfeitos com migalhas. Assim como fizemos com as riquezas naturais nas Minas Gerais e em tantas Minas da Terra Mãe. Vendemos ouro a preço de cascalho de ferro, vendemos montanhas e vales, vendemos Vale achando que nada vale, para depois a Vale soterrar na lama a vida que havia em nossos vales.

Morrem dentro de nós os vales da Essência, quando nos vendemos aos interesses de fora, para agradar, ser aceitos, ter proteção ou ser valorizados. Porque não valorizamos a riqueza que nos habita. Vendemos nossas entranhas de vida, nossos veios de ouro ou córregos onde brota feijão, em nome do lucro cego ou da eficiência, do pragmatismo: fazer o que tem que ser feito, custe o que custar; agradar aos outros para que gostem de nós; ter êxito e sucesso e eficiência, para sermos vistos e admirados; ser diferentes e buscar emoções fortes para terem compaixão de nós; aprisionar a vida em abundância que corre dentro de nós,   na mesquinhez da nossa teoria da escassez, por medo que a vida acabe ou por medo de perdermos o controle sobre ela; prevenir-se, projetando cenários de risco e perigo e achar que assim estaremos seguros para o que der e vier, por achar que estamos sozinhos e desprotegidos; planejar coisas agradáveis e prazerosas, para fugir de um sofrimento que nos persegue, sem olharmos para ele, pois achamos que é maior do que nós e não o suportamos; cultivar uma imagem de força e respeito, como vingança preventiva, por achar que estão contra nós e todos vão nos trair; achar que é melhor ficar quietos e calados, esquecendo de nós e omitindo-nos, por acreditar que não temos valor.

Achando que viver era isso... deixamos de viver. Acreditamos que viver era ser perfeitos, ou agradar aos outros, ter êxito e sucesso para sermos vistos com admiração, buscar emoções fortes para terem compaixão de nós, garantir a nossa autonomia e privacidade, camuflar a nossa ansiedade e insegurança, evitar sofrimento buscando prazer, passar uma imagem de força e respeito para ter o controle ou evitar nossos conflitos esquecendo de nós mesmos e do nosso valor. Acreditamos. E deu nisso. Esquecemos do valor de nossos paraísos interiores e nos tornamos peças de uma engrenagem que tritura vidas, nas suas diversas formas. Não nos perguntaram se queríamos ser felizes e acreditamos nas falsas promessas de felicidade. Consumimos, nos tornamos úteis e nos encaixamos no sistema. Não questionamos. Esquecemos de quem somos, para ser o que outros quiseram que nos tornássemos. E deu nisso. Deixamos que destruíssem nossas florestas e rasgassem as nossas entranhas e sugassem o sangue da Essência que corria em nossas veias.

Mas isso tem preço. Há rejeitos, desse processo de exploração interior suicida. Guardamos dentro de nós, rejeitos, barragens de rejeitos, como sombras que nos habitam e nos assustam. Não sabemos o que fazer com os rejeitos. Reforçamos nossas barragens internas, na triste e perigosa  ilusão de conter a lama de nossas sombras. Um dia... as barragens rebentam... e não temos controle sobre a lama. Lamentamos a destruição e somos solidários com as vítimas, choramos a sorte ou a falta dela... mas continuamos acreditando nas faladas promessas de reforçar as barragens. Não ousamos questionar a origem de toda a lama.

Diz o Google que Barragem de rejeitos é um reservatório destinado a reter resíduos sólidos e água resultantes de processos de beneficiamento de minérios. O armazenamento desses rejeitos é necessário a fim de evitar danos ambientais.

Ouso questionar a lógica do Google quando diz que é necessário o armazenamento dos rejeitos para evitar danos ambientais, pois acredito que no manejo de nossa ecologia interior, o armazenamento dos rejeitos é desastroso, como também assim aconteceu em Brumadinho e Mariana. Guardamos os Rejeitos da exploração da riqueza da nossa Essência... e depois as barragens de rejeitos explodem. A Raiva como explosão vulcânica, o Orgulho como sentir-se autossuficiente e insubstituível, a Vaidade como necessidade permanente de fazer algo para chamar a atenção  e ser visto, a Melancolia como tristeza profunda e pessimismo perante a vida, a Cobiça como necessidade insaciável de tudo entender e controlar pelo conhecimento, o Medo como ansiedade que paralisa,   a Gula como voracidade insaciável de prazer, a Luxúria como excesso de força que destrói e intimida, a Preguiça como esquecimento de si que leva à omissão e acomodação... são outros nomes para o mar de lama tóxica que mata nossos córregos interiores e suas margens, destruindo a vida, destruindo vidas.

E quando não ousamos questionar as causas e cuidar das raízes... depois ficamos aí perplexos,  sem saber o que fazer, vendo a lama avançar, destruindo tudo por onde passa... em Brumadinho como em Mariana, na sociedade, dentro de nós...

Ouso ainda sugerir ao Google que existe na consciência de cada um de nós...  que em vez de armazenar rejeitos, cuidemos da nossa ecologia interior, preservando a nossa Essência, resgatando-a, quando perdida, vivendo a partir dela e em harmonia com ela.

É da nossa Essência que brota o sentido da vida, a missão, a realização, a felicidade autêntica e o contentamento. A Personalidade... bem, ela serve e pode servir para proteger e expressar a Essência. Mas não dá para trocar Essência por Personalidade, como não dá para trocar minério por vidas, vidas humanas, animais, rios e plantas.

Armazenar rejeitos da nossa mineração interior, gera tensão permanente, estresse, depressão, somatizações sem fim cujo triste fim é a morte. Onze milhões e meio de pessoas em depressão no Brasil, além dos muitos outros que não cabem nas estatísticas. Tensão social. Ódio e violência. São outros nomes das muitas barragens de rejeitos das muitas mineradoras que destroem a nossa ecologia externa. Pessoas insatisfeitas e doentes, instituições adoecidas, uma sociedade estagnada em processo de autodestruição. Pessoas aparentemente satisfeitas e bem adaptadas na Normose de uma cultura doente. Algemas de ouro... ostentadas como joias de luxo, de poder e prestígio. Reforçar barragens é botar tranca na casa arrombada, como é insano alimentar o ódio e dar armas para haver segurança. Solidariedade com as vítimas de Brumadinho é coisa linda de se ver para podermos contemplar a beleza humana que lama alguma consegue soterrar. Mas a solidariedade não basta para consertar as consciências pesadas por ficarmos mudos perante a injustiça.

Porque tudo está dentro e o que está fora é reflexo do que está dentro. Porque tudo é Um.

No Evangelho de Marcos (7,15- 23), Jesus lembra: Nada que, de fora, entra na pessoa pode torná-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura.  Quando Jesus entrou em casa, longe da multidão, os discípulos lhe faziam perguntas sobre essa parábola. Ele lhes disse: “Também vós não entendeis? Não compreendeis que nada que de fora entra na pessoa a torna impura, porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, e vai para a fossa?” Assim, ele declarava puro todo alimento. E acrescentou: “O que sai da pessoa é que a torna impura. Pois é de dentro, do coração humano, que saem as más intenções: imoralidade sexual, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades; fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e insensatez. Todas essas coisas saem de dentro, e são elas que tornam alguém impuro.”

 

Somos Um. Somos todos Um. Ecologia é integral... ou não é nada. Cuidar da Essência e viver a partir da Essência, do Divino em nós e na Natureza. Porque destruir a Essência em troca de lucro ou conforto, sucesso ou aprovação, amor de bijuteria, segurança de arma na mão ou valor comprado pelo esforço e a força... não preenchem vazios internos, não preenchem os vales de nossas carências... antes permitem que uma Vale qualquer as soterre sob lama. Armazenar rejeitos  de nossas sombras, é a triste sina de não cuidarmos do melhor de nós mesmos e nos descobrirmos oprimidos pela falta de consciência, que chamamos normalmente de falta de sorte ou azar, ou tragédia ou desastre... quando o crime de nosso Brumadinho interior começou lá nas brumas de nossa infância e ao longo da vida não o confessamos nem reparamos.

Há quinhentos anos as riquezas naturais são arrancadas e roubadas, mas agora só nos perguntamos por que a barragem rebentou. Vivemos uma vida inteira fora da Essência... e corremos o risco de morrer sem saber o que é vida de verdade. Cuidemos da vida moço, antes que venha a morte ou coisa parecida - como dizia Belchior.

Rebentam nossas barragens de rejeitos interiores... quando não podemos mais conter o lixo tóxico de nossas emoções adoecidas que nascem do coração ferido pelo olhar distorcido. Rebentam as barragens de Brumadinho e Mariana, como rebentam as barragens da hipocrisia social e então corre solta a lama do preconceito e do ódio, da discriminação, racismo, homofobia e outras tantas lamas tóxicas que uma sociedade doente guardou e já não suporta mais. E todas as barragens começam rompendo dentro de nós... guardando rejeitos, porque nos vendemos, trocando o Ser pela ilusão de ser, o não-ser.

A vida é sobre o reencontro com a Essência. O Amor respira no agora -  dizia Rumi. Porque a Essência se encontra na Meditação, na comunhão de cada Ser consigo, com os outros, com tudo e com o verdadeiramente Outro.

Universo. Voltar ao Uno. Retornar à Comunhão. Porque Somos Um. Conosco, com tudo e com todos, com o verdadeiro Uno - Deus, pois n’Ele vivemos, nos movemos e existimos - At. 17, 28.

 

      Domingos Cunha