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Saborear o momento presente

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Reza a lenda, que um homem caiu num abismo e enquanto rolava ladeira abaixo, se agarrou no galho de um arbusto. Segurou-se naquele galho frágil, com todas as suas forças. Respirou fundo e naquele suspiro aliviou o frio na barriga. Olhou para o fundo do abismo... e gelou de medo ao ver as pedras lá em baixo... e sentiu o arrepio imaginando seu corpo se despedaçando nas pedras. Segurou mais firme no galho do arbusto... e sentiu as forças faltarem... e temeu que o galho frágil não o sustentasse por muito tempo. O medo tomou conta dele por inteiro. Ele sentia que não iria conseguir segurar-se ali por mais tempo... e, de repente, ele avistou ali, do lado dele, num buraco da Rocha, um pé de morango Silvestre, com um lindo morango maduro, reluzente, de dar água na boca... e ele não duvidou! Pegou o morango, levou-o à boca... o morango se desfez em doçura enchendo a boca dele e ele saboreou deliciosamente aquele momento, a doçura do morango saboreado, como um momento de êxtase.

 

Estamos na ladeira do abismo. Olhamos à nossa volta e as ruas vazias nos trazem desespero. Escutamos as notícias e o pânico sufoca a nossa respiração. E sabemos que a única segurança que temos agora é o galho frágil de um arbusto.

Mas talvez seja o momento de olhar, aqui do nosso lado... e encontrar um morango silvestre gostoso... e saboreá-lo.

 

Viver o momento presente, o aqui e agora, o hoje.

Porque o ontem já passou e a saudade suga a nossa energia.

Porque o futuro ainda não existe e nenhuma segurança temos sobre o dia de amanhã.

Isso gera ansiedade.

O presente é o que temos para hoje.

O passado e o futuro, além de não existirem mais e de sugarem nossa energia, nos tiram do presente, do aqui e agora, onde a vida real acontece, onde os morangos silvestres estão e onde podemos saboreá-los.

 

Tempo de parar. De não ir a lugar nenhum, a não ser ao lugar mais próximo e mais distante: o interior de cada um de nós. O Universo nos forçou a parar, porque já não dávamos conta de frear sozinhos. Rolando ladeira abaixo como um carro sem freio, vendo o abismo lá no fundo e sentindo no corpo e na alma os arrepios da certeza de quem vai se arrebentar...não dávamos mais conta de parar. Um vírus nos fez parar. E estamos aqui, suspensos no abismo... e podemos ficar olhando as pedras lá no fundo do abismo antecipando cenários de arrepio... ou podemos catar morangos silvestres ao nosso lado.

 

Você não tinha tempo para nada... e agora você nem sabe o que fazer com tanto tempo...

A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, então nasceste escravo - dizia Fernando Pessoa.

Tereza de Ávila rezava assim: nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, a paciência tudo alcança... a quem Deus tem, nada falta... só Deus basta.

 

Onde Deus está, no meio desta Pandemia? - Alguém poderia perguntar.

Deus está onde sempre esteve: dentro de você, no mais íntimo do seu coração.

E é aí que você pode encontrá-lo e n’Ele encontrar a paz e a confiança, a serenidade.

E é a partir daí, como criança que se abandona no colo de mãe, que você pode olhar a tempestade lá fora, mantendo a calma, por saber que não está só e por ter certeza que tudo vai passar.

Tudo passa... e isto também passa.

O Amor permanece. E o Amor basta.

 

Tudo o que acontece, acontece para melhor... acredito sempre... mesmo quando não dá para enxergar razão ou lógica alguma. Porque Deus está!

 

Por que medito?!

- Para isso, para saborear a presença amorosa de Deus. Para experimentar o colo de Deus Mãe. Para poder olhar a tempestade com calma... para poder saborear o morango silvestre mais gostoso, ao meu alcance, no aqui e agora.

 

Viver o presente. Abrir mão do controle. Porque, se a gente ainda tinha ilusões, o vírus nos comprovou que não temos controle de nada. Entregar-se, confiar, abandonar-se. Deixar Deus ser Deus. Abrir mão de ser Deus.

 

Não vos preocupeis com o dia de amanhã - lembrou Jesus.

A cada dia basta a sua preocupação - continuava Ele.

E hoje entendo que a cada dia basta a sua preocupação,

Porque, com o sofrimento de hoje nós ainda damos conta de lidar...

Mas somos incapazes de lidar com as preocupações de amanhã.

 

Viver o momento presente.

Às vezes ouço o vento passar

E só de ouvir o vento, vale a pena ter nascido - dizia ainda Fernando Pessoa.

 

Viver o momento presente.

Viver o aqui e agora.

Saborear os morangos silvestres que estão ao nosso lado

Neste abismo onde estamos suspensos

No colo de Deus.

 

Domingos Cunha

 

No youtoube https://www.youtube.com/watch?v=_uZ4gq8hH44