Instituto Eneagrama Shalom

Textos Domingos Cunha

Subir descendo

Era sem dúvida um homem esforçado! Por acreditar que aquela escada o levaria ao céu, ele foi subindo, degrau por degrau... e a duras penas foi subindo e superando as nuvens, afastando-se da terra e ganhando o céu... às vezes recuava um degrau, ou dois, quando o fracasso  maior o acertava de frente... mas logo sua vontade tenaz o fazia dar a volta por cima e, de cabeça erguida, pés apoiados no esforço humano, na disciplina e no rigor ascético, aquele homem ia escalando o céu... e a cada degrau, quando as forças iam faltando, crescia  o entusiasmo pelo alento de encontrar Deus!
E um dia, depois de muitos degraus escalados... aquele homem teve a agradável surpresa de sentir sua cabeça batendo no teto do céu! Chegara no mais alto dos céus! Havia conseguido! Finalmente, seu esforço estava prestes a ser recompensado!
Respirou profundamente... segurou o ar por uns instantes... e abriu os olhos ao expirar, na ânsia de ver Deus... mas tudo o que viu foi apenas uma escuridão imensa!
‘Deus! Onde estás?!’- foi o grito  profundo daquele homem... que não queria acreditar na possibilidade de ter subido em vão aquela escada imensa.
E, no meio do silêncio escuro... uma voz rasgou o véu dizendo:

  • ‘Deus está lá em baixo! Deus mora lá em baixo, nas pessoas, junto com as pessoas!’

É... faz tempo que Deus mora lá em baixo! Ele desceu numa noite fria para morar com as pessoas, entrando num  chiqueirinho de animais, na pele de um menino de pais ambulantes que não tinham onde pernoitar! Faz tempo que esse Deus anda por aí... morando onde o povo mora, se achando em boa companhia no meio dos pobres e de toda a sorte de gente que a sociedade marcou para viver à margem como lixo que incomoda! Fez muitas amizades por aí... conviveu com a miséria humana, na sua própria pele e na pele dos outros que ele assumiu como sua! Experimentou os dramas humanos e seus abismos profundos e mergulhou nas sombras que a morte habita... desceu aos infernos...  faz tempo que Deus anda por aí... disfarçado, diga-se a verdade!

Por isso, é preciso descer para encontrar  esse Deus! Subindo, só se encontra solidão!
Estranha lógica essa aí... mas foi brincadeira de Deus que assim fez essa lógica valer! Talvez para que a gente pudesse encontra-lo... embora a gente teime em subir!

 Ele tinha a condição divina, mas não Se apegou à sua igualdade com Deus.  Pelo contrário, esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens.

Fl. 2, 6-7

A lógica de quem sobe... é a lógica do esforço humano, da conquista pessoal, do mérito  que marca pontos e depois se sente no direito de cobrar os louros.. como se Deus houvesse se tornado seu devedor pelo esforço desprendido e pelo êxito alcançado! É a lógica da perfeição, que leva a subir, a tirar os pés do chão por acreditar no engodo de que humano é coisa má... e que é preciso subir para ser bom!

Mas Deus achou bom tornar-se humano! Ele fizera o humano à sua imagem e semelhança... e achara isso muito bom! Mas os humanos não acharam bom o que Deus achara! Quando perceberam suas sombras... acreditaram que isso era coisa má... e disso quiseram fugir! Mas Deus, que assim os criara, havia achado bom aquilo que criara... e Deus havia criado assim o ser humano: com luzes e sombras, com dons e limitações, com a fragilidade do barro e a fantasia do sonho que faz alcançar estrelas... com as misérias e os dramas, as tensões e os conflitos... e Deus achou boa essa mistura  fina e considerou sua obra prima e imagem sua o ser humano... assim, mesmo, desse jeito: imperfeito, limitado, com luzes e sombras!
Mas, como não bastasse ou porque os humanos ainda não haviam entendido, ou talvez até muito mais por causa de um  amor apaixonado e louco como o amor de toda a paixão, esse Deus resolveu tornar-se humano... Ele mesmo achou bom  tornar-se humano!  E por isso desceu e por aí armou sua tenda! E por aí Ele mora... até hoje!

Vivemos procurando Deus no endereço errado... faz tempo que Ele deixou esse endereço e se mudou de mala e cuia para o convívio com os humanos! É aí, no ser humano, que poderemos encontra-lo! Porque o ser humano assim se tornou o caminho de Deus até nós e o nosso caminho para Deus. Se fugimos do humano e o negamos, como  poderemos encontrar Deus? Ou... se acaso algum deus encontramos, que deus será esse?!
Esse Deus que João no Prólogo de seu Evangelho diz ter acampado entre nós (Jo.1, 14), é o mesmo Deus que no relato do Gênesis vinha pela brisa da tarde passear com suas criaturas por entre o jardim (Gn. 3, 7-10).  E esse Deus, segundo os Provérbios (Pr. 8, 30-31), É UM Deus que se deleita brincando com os humanos: Eu estava com Ele, como mestre-de-obras. Eu era o seu encanto todos os dias, e brincava o tempo todo na sua presença;  brincava na superfície da Terra, e deliciava-me com a humanidade.

Conta a lenda, porque as lendas falam aquilo que a gente tem  vergonha de falar de outro jeito ou não dá conta de explicar direito, que Deus um dia se achou cansado... e desejou repousar sem ser importunado e por isso buscou um lugar onde se esconder sem que alguém pudesse encontrá-lo. Depois de várias sugestões... Deus optou por esconder-se dentro do próprio ser humano, com a certeza de que esse seria o último lugar a ser procurado!
É assim, na verdade! Continuamos preferindo subir escadas... porque continuamos achando mais cômodo fugir de nós mesmos! O que terá de tão ruim dentro de nós mesmos?! Ainda não acreditamos que Deus nos habita no mais profundo... ou será talvez porque Ele habita precisamente aí onde habitam também nossas sombras?!
Contam os Padres do Deserto que três jovens decidiram ser monges. O primeiro quis dedicar sua vida  a apaziguar conflitos. O seguindo dedicou-se a tratar dos doentes e o terceiro foi para o deserto. Um tempo depois, o primeiro começou a entrar em angústia, por não dar conta de apaziguar todos os conflitos... e resolveu visitar o segundo, que também se achava deprimido, por não conseguir curar todos os doentes. Os dois foram encontrar o terceiro e lhe pediram para que contasse sinceramente o que havia alcançado. Este, pegou uma bacia e nela colocou água e pediu que eles olhassem... e nada viram, pois a água estava ainda agitada na superfície. Depois do silêncio prolongado e inexplicado, o terceiro pediu novamente que olhassem a bacia... e eles puderam enxergar seu rosto na superfície da água aquietada!
Foi assim, por esse caminho, que os Padres do Deserto experimentaram o encontro com Deus... deixando a água serenar, enxergando seu rosto na serenidade profunda que dentro deles habitava após  se acalmarem seus tumultos... e aí experimentando Deus profundamente!
‘A Espiritualidade que os monges nos ensinam é uma espiritualidade a partir da base, uma espiritualidade que tem a coragem de olhar para tudo o que existe em nós, também para nossos lados sombrios, e apresenta-los a Deus. Os monges convidam-nos a seguir o caminho da humildade. Nesse caminho,  somente subiremos a Deus descendo  até à nossa realidade. O modelo é Jesus mesmo, pois foi ele quem  desceu do céu a fim de, como irmãos seus, elevar-nos a Deus. Segundo o modo de pensar de Paulo, este é também nosso caminho: só pode subir a Deus aquele que primeiro desceu (cf. Ef. 4, 9s).1
Estamos perante uma espiritualidade a partir de baixo... depois de tanto tempo  instigados a cultivar uma espiritualidade a partir de cima! Esta última possui certamente sua  importância, pois educa para testar a força... mas pode facilmente levar-nos a passar por cima de nossa própria realidade, reprimindo-a ou fazendo de conta que ela não existe. Abraçamos ideais sobre-humanos, por querermos ser perfeitos sendo humanos, e depois acabamos nos queixando de nossas fraquezas e de nossos limites, simplesmente porque nos impedem de alcançar nossos ideais... e isso nos leva a uma luta contra nós mesmos, a uma divisão interna destruidora, a um desprezo do humano no dualismo que nos torna doentes... sem jamais no darmos conta de que a única coisa errada terá sido postular ideais que não levaram em conta a aceitação do humano!
Coisa bem diferente é a espiritualidade a partir da base. Ela nos convida a percorrer o cainho da auto-observação e do sincero autoconhecimento. O caminho para Deus  passa pelo confronto com minhas fraquezas e minhas misérias,  minhas paixões, instintos e necessidades.  A espiritualidade a partir de cima, luta contra as limitações...  essas mesmas limitações que, na espiritualidade  a partir da base, se tornam pedagogas indicando caminhos para  chegar até à verdade de mim mesmo. Um Padre do Deserto cita Jeremias 2, 19 para aconselhar: ‘Teu entulho, seja teu pedagogo’! Porque é justamente no confronto com nossas fraquezas pessoais que nos tornamos abertos para Deus.2

É imenso, o mar! Pleno, profundo, cheio... mas sabe por que ele chegou a ser assim tão imenso? –Apenas porque teve a humildade de colocar-se um pouco abaixo dos rios e de todos os riachos mais simples... e desse jeito, acolhendo a água de todos por se haver colocado mais abaixo, ele se tornou cheio! Abaixando-se... ele se encheu!
Descer para subir... ou subir descendo! Esse é o paradoxo da vida... pelo menos, válido para aquela vida que quer ser inteira!

Teve em Ávila uma mulher  de nome Tereza, que se  tornou grande por experimentar esse caminho e de sua experiência falou abundantemente, como só  quem experimenta assim é capaz de falar.
‘E desatino pensar que havemos de entrar no céu sem primeiro entrar em nós mesmas, a fim de conhecer e considerar nossa miséria’. 3
Atribui-se a Maomé  a sentença que diz: ‘Se te conheces, conheces a Deus’. A  Santa do Carmelo,   havia dito também: ‘É tão importante este conhecimento de nós mesmas, que não quisera jamais descuido neste ponto, por mais elevadas que estejais nos céus. Enquanto vivemos nesta terra, não há coisa que mais importe para nós do que a humildade... é muito bom, é sumamente bom entrar primeiro no aposento do conhecimento próprio, antes de voar aos outros’. 4
Mas ela mesma percebeu também e se deliciou na experiência  de nesse mergulho se  encontrar e se encontrando encontrar Deus no mais profundo de si mesma e, tendo encontrado Deus, se conhecer então verdadeiramente: ‘Se não procuramos conhecer a deus, jamais acabaremos de nos conhecer a nós mesmas’. 5

O que a santa experimentou no caminho em busca de Deus, C.G. Jung ensinou como caminho para a felicidade: ‘O ser humano não se torna iluminado ao imaginar figuras de luz, mas ao conscientizar-se da escuridão’. Na sombra que nos assusta por pensarmos que nela há apenas escuridão... aí podemos encontrar ‘ouro fino’, como sua essência mais sagrada!

Nossa retina se alarga quando procurarmos enxergar na escuridão... e é maior o brilho da luz que  se acende no meio das trevas. Somos assim... luzes e sombras, porque assim Deus  achou por bem criar a gente e viu que isso era bom e também nós experimentamos como sumamente bom quando vencemos a tentação de negar o que somos  subindo escadas para fugir do nosso chão! Não existem pessoas boas e outras pessoas que sejam más. Cada pessoa, em si mesma, tem coisas boas e coisas que não são boas... mas isso é bom! Embora a gente só acredite nisso, quando puder experimentar-se abraçando aquilo que é!

O Senhor  disse a Moisés: “Fala aos israelitas: Sois um povo de cabeça dura; se por um instante subisse convosco, eu vos aniquilaria. Despojai-vos, pois, dos enfeites, e eu saberei o que fazer convosco”.  Os israelitas despojaram-se dos enfeites ao partir...(Ex. 33, 5-6)

1  Anselm Grun, O Céu começa em você, ed. Vozes, 7 Edição, Petrópolis, 2000, pg. 130

2  Anselm Grun, Op. Cit., cap. 1, pag. 21s

3 Santa Teresa de Jesus,  Castelo interior ou moradas, Paulus, S. Paulo, 1981, pg. 49, n. 11

4 Ibidem, pg. 31, n. 9

5 Ibidem.

Domingos Cunha, CSh.

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