Eu tinha quinze anos quando me passou debaixo dos olhos um poema de Leopoldo Sengor que começava assim: ‘eu te perdôo, ó Deus, porque as estrelas também morrem’... e eu senti dentro de mim uma reação que demorou anos para ser entendida. Um misto do receio de alguém que se vê proferindo uma blasfêmia contra a onipotência do Deus perfeitíssimo decorada no catecismo... e a satisfação secreta torcendo para isso fosse verdade aceita, pois essa verdade, admitida e permitida, me daria o direito de ser imperfeito!
Me lembro também que alguns anos mais tarde fiquei extasiado quando pela primeira vez escutei uma dissertação sobre a ‘teoria do caos’... pois isso, entendo agora, se juntava com aquela mesma sensação dos quinze anos e confirmava minha intuição-desejo de que essa conversa de perfeição não levava a canto nenhum.
Tempos depois, ouvi um padre jesuíta, no meio de um retiro, fazer uma instrução sobre ‘Perfeição e Santidade’... e aí, agora sim, descansou em paz minha ansiedade e uma satisfação serena me invadiu e muitas trilhas brilharam logo na minha mente.
Fiquei ligado nessa conversa! E embora pessoalmente nunca tivesse alimentado sentimentos de culpa por conta de minhas imperfeições, fui percebendo o quanto eles pesavam na vida de tanta gente e sugavam o brilho de viver. Tenho falado disso em cursos e encontros e retiros e tenho visto como brilham os olhos das pessoas e como há respirações profundas à medida que vou falando e como relaxam os ombros de tanta gente!
Doeu no fundo da alma quando ouvi aquela religiosa de setenta e quatro anos, de olhos fixos em mim, perguntar do fundo de sua angústia: ‘padre, o senhor acha que eu ainda tenho tempo de ser feliz?’ – isso porque, a vida inteira, ela carregara fardos pesados em nome de um ideal de perfeição que na infância seu inconsciente adotou e que a formação religiosa reforçou ao longo dos anos!
Me lembro também daquela outra senhora, que como a anterior passou anos a fio se debatendo com suas cobranças perfeccionistas, mas um belo dia se alegrou ao encontrar em Eclesiastes 7, 13 uma palavra libertadora e para ela revolucionária:’não queira o ser humano endireitar o que Deus criou torto’. Ela riu de si mesma, ela que tanto tempo havia passado lutando contra moinhos de vento e lutando por causas perdidas tentando aperfeiçoar o mundo e as pessoas sem ter conseguido consertar nem a si mesma... e ela descobre agora, que afinal até Deus fez coisa torta e assim é para deixar ficar o que Ele achou por bem desse jeito fazer!
Foi lá na Grécia que inventaram essa idéia de perfeição e até hoje pagamos caro por essas coisas! Em nome desse ideal se negou o humano e embora alguém tenha desculpado a raça setenciando que ‘errar é humano’, nunca isso foi tranqüilo nas consciências. Era claro! Se Deus era um ser perfeitíssimo e se entendíamos perfeição como essa coisa estática de ausência de limite... nós mesmos nos cobrávamos o dever se ser perfeitos, pois assim nos sentíamos cobrados por esse Deus perfeitíssimo sem limite algum!
Crescemos ouvindo que devemos ser perfeitos e que toda a imperfeição é coisa feia e má. Fizeram a gente acreditar que limite é imperfeição e nos empurraram para nos superarmos sempre a cada dia na lógica do esforço. Depois, fomos ouvindo a conversa de que limitação era sinônimo de pecado e a aí a coisa começou a gerar sentimentos de culpa! Talvez até, durante algum tempo no auge das forças de nossa juventude, tenhamos conseguido subir degraus espinhosos e ladeiras agrestes, à base de muito esforço pessoal e de uma ascese distorcida que descambou na mortificação que fazia a apologia do sofrimento. Mas logo vinha o fracasso lembrando que somos humanos... mas, como admitir o fracasso se nos haviam feito acreditar que éramos super-homens e super-mulheres, negando na prática o direito de sermos simplesmente humanos?! Era o fim... a culpa, a cobrança... e tome longas penitências e punições e lá se vai a auto-estima ladeira abaixo!
Era moda exaltar a perfeição! Falava-se do ‘Homem perfeito’ ou da ‘mulher perfeita’, do ‘marido perfeito’ou da ‘dona de casa perfeita’, do ‘filho perfeito’ e do ‘professor perfeito’... e esse padrão era cobrado! Talvez hoje essa linguagem tenha passado de moda! Mas foi apenas a linguagem que passou de moda, pois o ideal de perfeição continua firme forte, mascarado numa linguagem mais agradável. Hoje falamos de eficiência! Falamos de qualidade total! Falamos... ‘politicamente correto’! Por trás de tudo isso, mais refinado do que nunca, está o velho ideal de perfeição, negando sempre o direito de sermos humanos!
Confundiram santidade com perfeição! Confundiram limite com defeito!
Se compro um Uno Mille e quero com ele competir na Fórmula UM... vou me dar mal! Poderei dizer que não tenho sucesso na corrida porque o carro tem defeito? Claro que não! O carro tem limites! Não são defeitos! Quando o carro tem defeito, posso reclamar do fabricante e desvalorizar o produto... mas, se admito que se trata de limites, devo aprender a conviver com eles!
Assim é a pessoa humana e assim é o que no universo existe! Ousaria dizer que até Deus tem limites... e me lembro que sempre na mais ortodoxa das doutrinas se dizia que Deus nunca poderia fazer o mal! Aí está um limite! Mas tem mais: Deus nada pode fazer contra a liberdade humana... ou contra a morte das estrelas, como dizia Sengor nos meus quinze anos!
Estou ouvindo a voz de tantos santos, conscientes de sua comunhão com Deus, se confessando pecadores e cheios de imperfeições e limites... mas nem por isso pondo em questão sua santidade. E, de repente, me lembro de um monte de textos que nos evangelhos dão conta das limitações da pessoa de Jesus... isso mesmo, o Filho de Deus, limitado Ele também! Vejam como Ele se cansa e chora, como reclama e como se queixa da ingratidão dos nove leprosos que não voltaram para agradecer, como se irrita com a incredulidade dos discípulos e se vê tomado de ira no descontrole que o faz derrubar as mesas dos cambistas na entrada do templo, como reclama da falta de inteligência dos discípulos de Emaús que são lentos para entender... vejam como Ele sente as tentações do ter, do poder e do prestígio e com elas luta e como a luta parece não ter sido fácil... vejam como Ele tem dificuldade de se concentrar na oração quando no Jardim das Oliveiras pede ao Pai que afaste dele o cálice do sofrimento, pois aí sentia medo e vontade de fugir, confessando aí sua insegurança e nervosismo. Vejam como Ele se engana em seus projetos, achando que iria conquistar o apoio de seu povo ao proclamar sua missão na Sinagoga de Nazaré... mas logo sente a rejeição da sua gente! Vejam como Ele se engana na estratégia, começando por pregar às multidões e depois, tendo-se dado mal nessa empreitada, se volta para o pequeno grupo dos discípulos e se concentra na formação destes. Vejam ainda como mesmo aí Ele não tem esse sucesso todo, pois ao fim de tanto tempo convivendo com eles de perto, quando Ele morre, os discípulos se dispersam desiludidos e pouco tempo antes da paixão ainda esperam que Ele restaure o poder de Israel, provando que nada tinham entendido do projeto do mestre. Além disso, um dos escolhidos a dedo o traiu e o outro o negou em seguida! Vejam como esse homem que chegou com tudo na Sinagoga de Nazaré, crente que iria arrasar prometendo realizar o ‘ano da Graça do Senhor’, além de não o conseguir, acabou morto numa cruz, como um fracassado!
Como poderemos continuar justificando essa conversa de perfeição ao olhar para esse Jesus de Nazaré... se não aprendermos com S. Paulo que é na fraqueza que se manifesta a força de Deus e que no fracasso da cruz Deus revelou a sua Glória? Esse mesmo S. Paulo, que certamente também precisou se apaziguar com seus ideais perfeccionistas, entendeu que ‘Ele tinha a condição divina mas se esvaziou a si mesmo assumindo a condição de servo’.
Deus fez a sua parte! Encarnou... assumiu nosso limite para nos ensinar que limite não tem nada de ruim e é coisa natural, humana, boa e tranqüila como caminho de realização no qual a harmonia é possível. Mas nós não entendemos! Continuamos nos martirizando impondo sobre nós um ideal de perfeição e chamando Deus com esse palavrão de ‘ser perfeitíssimo’ e nos sentindo obrigados a ser como Ele!
Me lembro daquele atleta de salto em altura que colocou a vara a quinze metros do solo. Tentou uma vez e não conseguiu... mas insistiu de novo e por não ter conseguido, foi treinar duro para tentar de novo mas de novo fracassou e tirou a conclusão de que ainda não havia se esforçado o suficiente nos treinos. Passou anos treinando firme e fazendo esforços desumanos... mas nunca conseguia atingir seu objetivo e começou a sentir-se um fracassado, culpando-se por nunca ir além daquela mediocridade. Sua auto-estima foi caindo... mas a vara não caía e ele nunca se colocou a hipótese de perguntar se aquela vara não estaria alta demais para as suas possibilidades!
Assim acontece conosco! Colocamos para nós mesmos ideais sobre-humanos e em nome deles nos destruímos! Não nos permitimos ser pessoas humanas! Não nos permitimos errar ou falhar, não nos permitimos dizer não aos outros e cuidar de nossas necessidades, não nos permitimos fracassar e dizer que não conseguimos, não nos permitimos ser simples e pequenos, frágeis e iguais ao comum dos mortais, não nos permitimos não saber tudo e não entender de todas as coisas, não nos permitimos desobedecer e discordar, não nos permitimos ficar tristes e chorar, não nos permitimos ser fracos, ficar cansados e doentes, falar besteira e errar, não nos permitimos ficar chateados e irritados, entrar em confronto e brigar... e, para manter esses altos padrões, gastamos uma energia enorme, reprimimos necessidades e sentimentos e emoções, nosso corpo reclama e grita com doenças que vão pipocando aqui e ali... e um dia, ganhamos uma bela placa no cemitério: ‘assim acaba a perfeição’!
Um dia poderíamos ser livres aceitando nossos limites e aprendendo a conviver com eles! E nesse dia, seríamos então felizes, aceitando-nos como simplesmente humanos! Foi assim que Deus nos criou e assim Ele nos ama e assim nos quer felizes! É assim o Deus de Jesus Cristo... e esses outros deuses que ainda andam por aí nos discursos moralistas de quem precisa a todo tempo justificar suas cobranças perfeccionistas ou suas ideologias da eficiência... esses deuses precisamos deixa-los morrer, para podermos ser gente! Felizmente, nosso Deus, esse de Jesus Cristo, é o Deus da vida, que não precisa que nos anulemos para que Ele seja mas que, antes pelo contrário, se sente glorificado quando o ser humano vive, como dizia o grande santo lá nos tempos primeiros da Igreja.
Um dia, então, poderíamos aprender a conviver com nossos limites... e do caos de nós mesmos veríamos nascer a harmonia, como esse Deus há tanto tempo nos ensina com a sua criação!
Me lembro daquela parábola do menino cujo sonho era aprender a lutar judô. Cresceu com esse sonho e quando estava chegando na idade de aprender a arte, um acidente lhe roubou o braço direito e matou o sonho de criança! Mas, como os sonhos que são grandes nunca morrem, passada a frustração dos primeiros meses, o menino está de volta com o sonho entalado no desejo. E o velho pai, para consolar o filho e não aumentar ainda mais seu sofrimento pelo infortúnio do braço perdido, resolveu alimentar a ilusão do menino. Falou com um velho mestre de judô que, tendo se compadecido com a triste história do menino, o admitiu em sua escolinha e o adotou como aluno predileto. Ensinou-lhe apenas um golpe da arte do judô. O menino o aprendeu com perfeição e o praticou exaustivamente. Mas, ao fim de alguns meses, vendo que os outros meninos aprendiam outros golpes, bateu a tristeza e a sensação de fracasso e, por alguns momentos, pensou em desistir daquela ilusão, resignando-se à sorte que sua limitação física lhe impunha! Mas mestre logo o reanimou e na palavra do mestre o menino continuou treinando. O mesmo golpe de sempre e apenas esse. Houve um dia um campeonato e gente de vários lugares se inscreveu para as lutas. O velho mestre inscreveu o menino, para espanto de todos e dele mesmo! A família ficou apreensiva, sem entender a insensatez revelada daquele mestre. Veio a primeira luta para aquele menino e ele ficou se defendendo o tempo todo, até conseguir aplicar o golpe no qual havia se tornado perito e aí, não deu outra: ele venceu a luta. Poderia ter sido apenas sorte ou pura coincidência – comentava-se entre o povo. Mas quando a segunda luta chegou, a história se repetiu e o menino foi avançando no campeonato... até chegar na grande final. Agora o negócio era mais sério! Iria lutar com um campeão famoso! A família resolveu dar um basta naquela ousadia do mestre pois seria arriscado para o menino entrar naquela luta sem um braço e sair machucado. Mas o mestre fincou o pé e assumiu a responsabilidade! O menino foi para a luta e a história parecia se repetir... até que, de repente, o menino aplicou o velho golpe... e ganhou a luta! Agora, não havia mais desconfiança acerca do mérito do novo campeão... e por isso, não tinha como não perguntar ao mestre qual o segredo do sucesso daquele menino. São dois os segredos – disse o mestre. O primeiro segredo é que esse golpe que o menino aprendeu é realmente um golpe fundamental na arte do judô e o menino aprendeu a executá-lo muito bem! O segundo... bem, o segundo segredo é que, para se defender desse golpe, o outro atleta só tem uma solução: segurar o braço direito do adversário!
Um dia, quando aprendermos que nossos limites são nossa força... nossa vida tomará outro rumo! Até lá... talvez precisemos de um mestre que nos ensine os segredos de viver! Foi pra isso que Jesus Cristo pintou por aí na vida da gente!
Domingos Cunha, CSh.
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