Pecado de Raiz, na linguagem do Eneagrama que adotamos, faz referência a uma tendência estrutural que habita cada pessoa e condiciona todo o seu comportamento. Não se trata de uma categoria moral-religiosa, mas de um núcleo negativo que se anicha nos alicerces da alma humana e a partir daí envenena a vida da pessoa.
O termo Pecado nos remete a ‘Pé Caído’, ou ‘Pé Torto’... e esse simbolismo enriquece nossa compreensão do significado deste conceito no campo da Personalidade: é algo que ‘entorta’ todo o andar da pessoa. Podemos também buscar a origem do termo ‘Pecado’ nos ambientes militares da antiguidade, onde se dizia, quando o arqueiro errava o alvo, que ele ‘pecou’. Pecar é errar o alvo, isto é, orientar a nossa energia para determinado objetivo e atingir outro diverso. Esperamos conseguir algo com determinada orientação de nossa energia e o resultado é diferente do esperado... geralmente, o resultado é precisamente o oposto, ou até aquilo que queríamos na verdade evitar.
De Raiz, por situa-se na base da estruturação de nossa Personalidade e a partir daí influenciar a pessoa como um todo, como a doença na raiz da árvore, que vai prejudicar as folhas, as flores e os frutos e pode matar toda árvore.
Á luz do Eneagrama, o Pecado de Raiz aparece como a estruturação da Ferida Central não curada. Vivemos uma experiência dolorosa que gerou em nós uma sensação dolorosa. Reprimimos e tentamos esconder, guardando isso nos meandros de nosso inconsciente. Mas a Ferida vai apodrecendo e de vez em quando se manifesta de um modo indisfarçável, expondo-se a nós mesmos e aos outros. Poderíamos dizer que o Pecado de Raiz é a doença crônica gerada por uma ferida não tratada.
Percebemos a centralidade deste dinamismo na vida de cada pessoa e a sua influência determinante no comportamento, tanto mais, pelo grau de profundidade com que ele se esconde em nosso inconsciente, a partir de onde vai minando nosso jeito de ser e de agir, de nos relacionarmos, de avançarmos pela vida.
Os Padres do Deserto, essa geração de gente fecunda, pais de um manancial profundo que até hoje alimenta a vida, o pensamento, a cultura e a espiritualidade, desenvolveram uma arte requintada no trato com essas ‘paixões’ ou movimentos interiores. A eles devemos a identificação mais clara e detalhada dessas energias e de sua sabedoria podemos também aprender os segredos para lidar com elas. O caudal deste rio a que chamamos Eneagrama, serpenteando ao longo da História para recolher a riqueza de várias nascentes, encontra aqui, nos desertos do antigo Egito, um olho d’água cristalino e profundo.
Entre os nomes famosos dos Padres do Deserto, vamos encontrar Evágrio (Evagrius Ponticus – 345-399). Nascido na cidade do Ponto (atual Turquia), foi discípulo dileto de Gregório Nazianzeno e por volta de 383 foi para o deserto de Nítria (Egito) e depois para Scete, onde conviveu com os expoentes da sabedoria dessa geração de pessoas que se tornaram grandes pela experiência de vida. Por aí, Evágrio bebeu a sabedoria prática, essencialmente empírica, que era transmitida entre os monges, mais pelo exemplo que pela palavra. A ele devemos a excelência da sistematização de toda essa riqueza e, a partir dele, João Cassiano a transpôs para o monaquismo ocidental. Por confusões político-doutrinárias, o nome de Evágrio foi muitas vezes ocultado e por isso, muitos de seus ensinamentos resistiram com o nome de Nilo.
Uma das obras famosas de Evágrio, a ‘Practike’, constitui-se como um verdadeiro tratado terapêutico do séc IV, um método espiritual que visa purificar a parte passional da alma, num lento processo de purificação do coração consciente e inconsciente, a fim de que ele volte a encontrar sua beleza primitiva, como imagem e semelhança de Deus. É um verdadeiro processo de psicanálise, no sentido profundo de análise dos movimentos da alma e do corpo, das pulsões, das paixões, dos pensamentos que agitam o ser humano.
Evágrio chama de Losgismoi (literalmente poderíamos traduzir por pensamentos estruturados, compulsivos...) aquilo que mais tarde seria assumido pela Igreja como Pecados Capitais. Ele os identifica como doenças do espírito ou doenças que transformam a pessoa em ‘viciada’, com desorientação do desejo. Mais tarde, o moralismo acabou escondendo o caráter medicinal da análise de Evágrio, que na origem via os Pecados Capitais como uma espécie de câncer psicoespiritual que corrói a alma e o corpo da pessoa, destruindo sua integridade.
Evágrio identifica Oito paixões ou movimentos, na origem dos nossos comportamentos. De João Cassiano até Gregório Magno, essas oito energias interiores passam por uma longa história. Na primeira lista de Oito Pecados, consignada por Evágrio, Gregório Magno (540-604) acrescenta a Inveja e tira a Preguiça... e ainda coloca o orgulho fora do jogo, por considerá-lo o rei de todos os vícios... e assim, as paixões ou demônios ou vícios identificados pelos Padres do Deserto, vão se tornando os Sete Pecados Capitais, cuja lista foi muito divulgada a partir da Contra-Reforma.
Voltemos lá na fonte de Evágrio...
para beber da sutileza com que ele aborda esse núcleo não determinante nas nossas vidas.
Gula: (gastrimargia – literalmente, gulodice e todas as formas de patologia oral). Evágrio descreve este ‘vício’ como o prazer do paladar, não apenas como o empanturrar-se de comida, mas também e especialmente o abarrotar-se de sentimentos, o deixar-se dominar pelo medo que nos falte algo ou que não tenhamos o suficiente. Ele observa que muitos se enchem de comida para não perceberem seus sentimentos e registra que a comida pode ser também um sucedâneo do amor. As pessoas dominadas pela Gula, tragam tudo, mas não conseguem saborear nada. No inconsciente há um medo de ‘morrer de fome’, tanto no sentido literal quanto no figurado. Trata-se de um ‘espírito de consumo’, uma ânsia de consumir, uma necessidade de consumar a vida.
Hoje se pensa que as marcas da infância podem condicionar a fixação na ‘fase oral’. A ansiedade e a angústia podem fazer a pessoa regredir até uma fase infantil, retomando atitudes infantis, na tentativa de encontrar solução para o seu mal-estar, engolindo uma grande quantidade de alimentos (sugando vorazmente experiências prazerosas).
Em João Cassiano, a Gula aparece caracterizada no hábito de antecipar a refeição, de empanturrar-se, de procurar pratos finos e requintados...
O verdadeiro Remédio estaria em aprender a saborear. Além do jejum, Evágrio receita a prática da oração repetitiva (meditação) e entoação de hinos e salmos. Em Relatos de um Peregrino Russo, vamos encontrar um conselho do peregrino dado a um capitão que era obcecado pela bebida: ler em voz alta o Evangelho, na hora em que for pegar o copo... pois isso produz salivação suficiente para acalmar a sua ansiedade.
Cobiça (Philarguria: não só avareza, mas toda a ânsia em relação a um ‘ter’ qualquer). Nesse impulso, que Evágrio reconhece como essencial ao ser humano, ele vê também uma aspiração oculta ao descanso. Através da posse, a pessoa espera não ter mais preocupações e poder entregar-se a uma vida tranqüila. A preocupação constante com aquilo que tem, faz com que a pessoa carregue um peso desnecessário, deixando-a atormentada pela tristeza e pela amargura de tanto pensar. A pessoa acaba ‘perdendo’ o que ‘tem’ para se afligir com as preocupações.
João Cassiano conta a história de um monge que deixou uma grande quantidade de bens à entrada do mosteiro mas entretanto, ao longo de sua vida monástica, foi incapaz de se separar de uma ‘borracha’... ao ponto de não conseguir emprestá-las aos seus confrades! Trata-se de apegos irracionais, que podem manifestar-se em relação a um bem material, mas de modo especial a idéias, práticas ou posturas particulares. Há uma espécie de identificação com o que se possui: sua perda é como perder a si mesmo.
Uma das raízes inconscientes dessa tendência situa-se na fase anal... ao identificar-se com o seu corpo, a criança experimenta um certo pavor, vendo-o decompor-se... e isso vai gerar uma tendência á retenção. A avareza, o conservar para si, consiste em tentar manter ‘bafo’ na vidraça de nossa existência... e tudo isso não tardará em desaparecer.
Para os antigos, trata-se de uma doença grave que nos priva da saúde do coração, da generosidade, da comunicação e da partilha de vida. Priva-nos do prazer de partilhar da gratuidade de Deus.
Para João Cassiano, a Cobiça se concretiza como apego aos bens, tentar reaver aquilo que se partilhou e tentar adquirir o que antes não se tinha...
O Remédio estaria na meditação sobre a morte, tomando consciência de que tudo passa, ‘tudo o que é composto um dia será decomposto’, para que assim a pessoa se torne livre interiormente e cultive o amor como o verdadeiro tesouro onde coloca seu coração. ‘Deixar a sombra para capturar a presa’, ‘vender tudo o que possui para comprar a pérola preciosa’. Só orientando o nosso desejo para esta riqueza interior, seremos capazes de saciar a nossa cobiça.
Luxúria (Porneia: não só a luxúria sexual, mas todas as formas de obsessão ou compensação). É descrita como a ânsia de dar ao corpo experiências sensíveis prazerosas. A sexualidade, vista por Evágrio como força poderosa, é um grito pela vida, pela transcendência, pelo êxtase, tornando-se assim um grande potencial de espiritualidade. A Luxúria tem muito a ver com a frustração. Como refúgio das frustrações, a luxúria se torna a fantasia de um mundo imaginário de onipotência, dominação e controle, convertendo a força da sexualidade numa ilusão. Trata-se de uma tendência que polariza toda a nossa energia para o plano do prazer sensível, implicando tensões e pulsões capazes de submergir a personalidade. Num plano mais profundo, a Luxúria é vista como fazer do outro objeto, uma ‘coisa’, uma matéria sem alma, um objeto de prazer e não um sujeito de amor. O contrário da Luxúria, para os antigos, seria ao respeito por si mesmo e pelos outros, evitando considerá-los da mesma forma como são abordadas as coisas. Afinal, apalpá-las com as mãos ou dissecá-las com a mente, equivale a manipulá-las e instrumentalizá-las. O contrário seria restituir ao outro seu ser pessoal e seu mistério, sua alteridade ‘não consumível’.
O Remédio para a Luxúria seria: beber menos, pois segundo a medicina antiga, a excitação vem da umidade excessiva no corpo; trabalho manual que produz uma fadiga sadia; meditação (como o cérebro é o nosso principal órgão sexual, trata-se de substituir o pensamento obsessivo pela atitude oração contínua); e amar cada vez mais pois, entendendo a Luxúria como um impulso grande para o excesso, ela não pode ser reprimida ou abafada pelo medo de amar, mas antes canalizada a serviço do amor aos outros e a Deus.
Ira (Orge: patologia daquele que é irascível, impaciência). Trata-se de uma reação ativa perante os desejos não realizados. Para Evágrio, a Ira toma conta da pessoa como se fosse uma coisa alheia a ela mesma. Ele a considera a mais forte das paixões, como que uma rebelião da parte irritável da alma humana que se levanta contra alguém que a tenha ferido ou por quem se sinta ferida. Essa força excita constantemente o consciente da pessoa e a assalta especialmente nos momentos em que ela tenta parar. Essa ira, quando dura muito tempo se transforma em raiva e é capaz de prejudicar até o sono da pessoa durante a noite. Pode também dificultar a alimentação. A pessoa assolada pela ira vai enfraquecendo e se vê freqüentemente assaltada pela sensação de ser atacada (especialmente durante o sono, imaginações de ataques de feras selvagens e venenosas). Para Evágrio, a ira não é apenas agressividade. Esta pode ter uma orientação positiva. O problema da ira é que ela se torna uma agressão incontrolada e a pessoa não consegue mais pensar com clareza. É como se a pessoa estivesse possuída. A Ira pode tornar uma pessoa doente, devorando a alma. A Bíblia usa para designar a ira uma expressão (Qesor appaim) que significa literalmente ‘brevidade do sopro’. Na realidade, a ira leva a pessoa perder o fôlego, a respiração fica curta, a pessoa fica sufocada e dá a impressão de estar ‘possuída’. Para Evágrio, a Ira é o que mais desfigura o ser humano, lembrando o verso do salmo 58: ‘sua ira assemelha-se à da serpente’. Ele vai mais além, ao afirmar: ‘não se pense que o demônio seja algo diferente do homem conturbado pela ira’(Carta 56). A Ira corrói o fígado, excita a bílis e, quando reprimida, torna-se particularmente perigosa: pode até gerar úlceras... e, pelo menos, pesadelos e outras perturbações durante o sono. Uma das causas da ira há de encontrar-se na dificuldade de aceitar o outro do jeito que ele é, sobretudo quando o outro não corresponde à imagem que dele fazemos. Aí a mente se irrita e a pessoa é corroída pelo ressentimento, como a ira de uma criança que se irrita por querer tudo na hora.
João Cassiano fala da ira como algo que arde no íntimo da pessoa e que explode em palavras ou atos e que é capaz de perdurar dias e dias...
O Remédio para a Ira também é muito bem cuidado pelos Padres do Deserto: em primeiro sugere-se o perdão (perdoarmo-nos uns aos outros por sermos o que somos); em seguida, aprender a expirar, prolongando o fôlego (respiração lenta e profunda). Isto, que para nós pode parecer um conselho de bom senso, é para os Padres do Deserto um grande exercício espiritual. Na linguagem bíblica, para dizer que Deus é paciente, diz-se que Ele tem grandes narinas! A sentença de S. Paulo ‘não se ponha o sol sobre a vossa ira’ (Ef. 4, 26), levava os monges antigos a fazerem, antes de se deitarem, alguns exercícios de respiração, insistindo na expiração, para expulsar toda a ira, dilatando assim as narinas, para cultivar a paciência divina. A grande virtude do monge, contraposta à ira, é a mansidão, entendida não como moleza nem fraqueza, mas como manifestação do perfeito controle do Espírito Santo sobre a parte irascível do nosso ser. Trata-se de uma mansidão transpessoal, que vai além de uma delicadeza de caráter, para se tornar reflexo da harmonização de todas as faculdades do ser humano.
Pessimismo (Lupe: de espírito triste, abatido, melancolia...). É o movimento que toma conta da pessoa quando ela não atinge os seus desejos. Às vezes aparece acompanhada da ira. A pessoa fica alimentando pensamentos em relação ao passado ou ao futuro e estes pensamentos tomam conta dela. Quando essas expectativas, desejos e necessidades, não são correspondidos, vem a frustração e as elaborações mentais da pessoa se desvanecem e ela se torna vítima da tristeza. Esse estado de desânimo, impede a pessoa de encarar novamente a realidade e a pessoa, infeliz, fica sofrendo, entregue a esses pensamentos. Este pessimismo, para Evágrio, é negativo e infrutífero, pois se torna não-valorização da pessoa. Quando não consegue satisfazer seus desejos, a pessoa se refugia na auto-piedade, desvalorizado-se. No fundo deste movimento se escondem desejos exagerados e megalômanos... ‘por não ser capaz, por não ser o melhor, me refugio na auto-desvalorização e na auto-piedade’. Para Evágrio, a raiz deste movimento da alma está no fato de a pessoa viver dependente do passado, que para ela é negativo e por isso fonte de pessimismo e invalidação.
Todas as formas de frustração geram mais ou menos um estado de tristeza. Atingir um estado de alegria interior, pressupõe aprender a lidar com a frustração e a ‘carência’. Para os antigos, a maturidade consiste em ‘assumir a carência’.
A verdadeira alegria não depende das coisas exteriores, daquilo que acontece, da presença tranqüilizadora de um determinado objeto, pessoa ou circunstância. Esta alegria permanece e é fruto de uma tranqüilidade profunda, de quem encontra o outro não para preencher suas carências de segurança, mas pelo prazer de comungar a vida que nos une e nos transcende.
Para João Cassiano, este pessimismo nasce da cólera extinta ou prejuízo sofrido ou desejo frustrado e configura-se como uma ansiedade ou desespero irracional.
O Remédio seria a aceitação do que se é, a auto-valorização e a auto-confiança. Fixar-se no ‘aqui e agora’ e valorizar o que ‘se é’... aí a pessoa tem a sua garantia de permanecer na tranqüilidade profunda, capaz de sustentar uma atitude positiva perante a vida.
Preguiça (Acedia: paralisia, desinteresse, melancolia profunda, desligamento da vida...). para os monges antigos, este era o pior de todos os demônios (dinamismo interno que move a pessoa). Eles descrevem este estado de espírito como uma apatia que aparece na hora do meio dia e dá à pessoa a sensação de que o sol se move muito devagar e que o dia tem cerca de cinqüenta horas.... e a pessoa fica observando continuamente o sol pensando no quanto está longe a hora de dormir. Pouco a pouco, vai se instalando no coração da pessoa um ódio em relação ao lugar em que se encontra, em relação à sua vida atual e também em relação ao trabalho que realiza. Acedia é a impossibilidade de viver o momento presente. A pessoa não tem vontade de fazer nada, nem de trabalhar nem de rezar... e nem sequer a pessoa consegue aproveitar o fato de não estar fazendo nada. Sempre está em outro lugar, viajando nos seus pensamentos. A insatisfação interior e a dificuldade de desfrutar o momento presente, cria uma dispersão interna na pessoa. A acedia se configura como fuga da realidade. A pessoa não quer confrontar-se com o seu próprio ser. Por isso, a pessoa sente uma necessidade contínua de ‘estar em outro lugar fazendo outra coisa’... mas, na realidade, ela se torna incapaz de fazer alguma coisa, de dedicar-se a algo ou a uma pessoa. Conhecida como ‘demônio do meio dia’, por assolar a pessoa quando o sol está mais alto... a acedia pode tomar conta da pessoa também na fase da meia idade, quando a pessoa perde o gosto e o entusiasmo pela rotina... e começa a se questionar. O que fez até então lhe traz uma sensação de vazio e aborrecimento. Além disso, a pessoa não enxerga nada capaz de entusiasmá-la ou com a qual sinta vontade de se comprometer. Por isso, fica andando sem rumo, torna-se cínico e critica tudo e todos. Na realidade, não sente vontade de nada...
Mais triste que a tristeza, a acedia é uma forma particular da pulsão de morte que introduz o desgosto e a lassidão em todos os atos da pessoa, conduzindo ao desespero. Isso às vezes pode levar a pessoa a buscar compensações na área da sensualidade ou das bebidas e comidas.
João Cassiano caracteriza a acedia como ´tédio do coração’ e diz que ela gera ociosidade, sonolência, vagabundagem, instabilidade da mente e do corpo...
O Remédio seria ocupar a mente com tarefas simples e viver o momento presente. É aconselhado também que a pessoa mantenha a fidelidade nos compromissos assumidos, abrindo-se ao outro e resistindo á tendência de se fechar em si mesmo. Surge aí o desafio pra que a pessoa reoriente sua vida descobrindo valores que dêem sentido para que a sua vida continue. Quando a pessoa consegue superar essa fase, ela experimenta um profundo estado de calma e uma alegria inefável.
Vaidade (Kenodoxia: vanglória, inflação do ego...). Trata-se de um constante gloriar-se diante dos outros. A pessoa faz de tudo para aparecer, ser vista, chamar a atenção. Evágrio considera a vaidade como uma companheira difícil, que surge em pessoas que quiseram viver virtuosamente e são dominadas pela ânsia de mostrar aos outros o quanto é difícil a sua luta. Assim, as pessoas buscam dos outros o reconhecimento, o elogia, a aprovação, o reconhecimento e a glória. Dominada pela vaidade, a pessoa vive o tempo todo preocupada com a imagem que os outros têm dela mesma: ‘o que pensam de mim? Gostam do que eu faço?’. A pessoa não é ela mesma e se torna dependente do critério dos outros e a pessoa vive preocupada imaginando como pode realizar a sua próxima aparição em público com o maior impacto e efeito possível para receber os merecidos aplausos. A pessoa julga-se objeto de admiração, sem ligação alguma com a realidade. A pessoa se coloca no centro do mundo, à semelhança da criança que exige a atenção de todo o mundo à sua volta. Tudo o que acontece é interpretado em relação a si mesma. O eu exige um reconhecimento absoluto, na ilusão de compensar todas as carências e frustrações do passado. Quanto maior for o sentimento de insegurança e de auto-valorização, maior será a necessidade de se elogiar e se gabar de suas façanhas ou de relações que confirmem a sua importância ilusória. A vaidade torna a pessoa particularmente irritável e suscetível, sempre que a imagem que tem dela mesma é colocada em questão. Basta um simples questionamento ou uma pequena observação para que a pessoa se sinta rejeitada ou perseguida... e, pelo contrário, o esboço de um sorriso já lhe dá a sensação que o mundo inteiro está a seus pés reconhecendo o seu gênio. A pessoa considera-se Deus e brinca de ser ‘como Deus’... e isso no fundo a impede de ser ela mesma. A vaidade torna a pessoa centrada em si mesma, o que a impede de permanecer centrada em Deus, aberta ao Outro.
Em João Cassiano, a Vaidade ou vanglória é caracterizada como jactância, o entender a vida como busca de benefícios pessoais e sinais corporais atraentes; o desejo de ser renomado e a cobiça de louvores humanos.
O Remédio para a vaidade é o auto-conhecimento... nada como a verdade sobre nós mesmos que o auto-conhecimento nos dá, para acabar com as nossas ilusões. O conhecimento do que se é, nos reenvia ao nosso lugar adequado, como criaturas limitadas, frágeis e contingentes. Quando a pessoa se liberta desta ilusão, corre o risco de cair numa tristeza profunda ou até numa preguiça existencial, no tédio do coração... deixando de ser o que julgava ser e deparando-se com a sua realidade. Aceitar o luto de nossas ilusões é sempre um processo doloroso mas necessário.
Orgulho (Uperephania: espírito de soberba, orgulho, paranóia, delírio esquizofrênico...). O orgulho faz a pessoa cega, diz Evágrio. A pessoa orgulhosa se identifica tanto com o seu ideal que se recusa a ver a realidade. Faz com que a pessoa, em vez de buscar em Deus a origem de suas boas obras, a busque em si mesma e se iluda com isso. O orgulho eleva a pessoa de tal modo ao mundo irreal de suas ilusões, que a faz perder completamente o contato com a realidade. É uma inflação do eu. A pessoa se identifica com a imagem de ‘mártir’ e ‘salvadora da pátria’... a pessoa não quer se olhar.
Se a Vaidade era considerada pelos antigos como um sinal de estupidez ou debilidade mental, o orgulho manifesta, no dizer dos mesmos, uma ignorância ainda mais profunda da natureza humana. O orgulhoso arroga-se os direitos e os poderes do próprio Criador e se sente no direito de julgar todo mundo. Considera-se a causa primeira de si mesma, como se pudesse dar-se a própria vida, insuflando seu próprio sopro. Esse movimento conduz a pessoa a um estado de desvario, pois ela fica ‘fora de si’. Os padres perceberam que a pessoa orgulhosa, quando é criticada ou recebe algum tipo de admoestação, fica logo ‘fora de si mesma’ e pode até tornar-se uma ‘louca varrida’.
Para João Cassiano, o orgulho pode manifestar-se tanto na dimensão espiritual quanto na perspectiva carnal-material. Ainda segundo este monge, o Orgulho gera desprezo pelos outros, inveja, desobediência, murmuração e delação.
O Remédio para o Orgulho é a Humildade. Os Padres do deserto não se cansam de falar dos efeitos terapêuticos da humildade. A humildade é a verdade, é ser o que se é, nem mais nem menos. Nada acrescentar e nada omitir, pois existe uma falsa humildade, que no fundo expressa um orgulho disfarçado; considerar-se o último, um desgraçado, o mais infame e o pior pecador... é ainda uma forma de atribuir a si mesmo uma importância exagerada. Ser humilde é aceitar a sua condição ‘terra’... e descobrir o encantamento pela terra frágil que somos, frágil e limitada, mas capaz de amar e de se abrir ao Amor de Deus. É no despojamento de si, na purificação de seu ego inflado, que o encontro consigo mesmo e com Deus se torna possível.
Inveja (comparação, ciúme, sensação de que o outro tem o que me falta...). A inveja manifesta-se na tendência que a pessoa tem de se comparar constantemente com os outros. Ela não consegue relacionar-se com ninguém, sem comparar-se. A pessoa começa logo a desvalorizar ou a supervalorizar, a si mesma ou à outra pessoa. Geralmente procura tirar o mérito dos outros, para se afirmar a si mesma. Mas, quando a pessoa invejosa entra em cena e toma consciência de sua baixa auto-estima, ela perde a naturalidade, fica tensa e se vê a si mesma como incapaz, inferior ou até como débil. Dominada pela inveja, a pessoa não é ela mesma e não se aceita do jeito que é, pois perdeu o sentimento de sua dignidade. Acostumada a reconhecer o seu valor sempre em comparação com os outros, a pessoa tomada pela inveja vai-se desgastando e sente cada vez mais a necessidade de se colocar acima dos outros ou de se deixar cair em depressões profundas, porque não vê nenhuma possibilidade de competir com eles.
Domingos Cunha, CSh.
Texto elaborado a partir de pesquisa pessoal, tendo como base bibliográfica Jean-Yves Leloup, Introdução aos Verdadeiros Filósofos, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2003; Anselm Grün, La sabedoria de los Padres del desierto, Ed. Sigueme, Salamanca, 2001 e anotações pessoais de consultas do autor sobre as Conferências 1 a 7 de João Cassiano, realizadas no mosteiro de S. Bento em Olinda.
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