Instituto Eneagrama Shalom

Textos Domingos Cunha

A parábola da jovem zulu

Conta a história que uma jovem zulu vivia numa aldeia onde todas as moças usavam colares. O daquela jovem, sem dúvida, era diferente, muito mais bonito que os colares das outras moças e, por isso, todas as outras tinham ciúmes e inveja dela.
Um dia, quando aquela jovem passeava na beira do rio, encontrou um grupo de moças e estas lhe disseram que haviam jogado seus colares na água, como oferenda ao deus do rio. E exigiram que também ela fizesse oferenda de seu colar. A Jovem tirou o colar e jogou-o no rio. Então as outras começaram a rir, tiraram seus colares dos bolsos e foram embora contentes.
A Jovem caminhava triste pela margem do rio, quando ouviu uma voz dentro de si mesma que lhe dizia: ‘Atira-te à água!’ No mesmo instante, ela se jogou no rio!

No fundo do rio, ela encontrou uma gruta e quando entrou, descobriu uma velhinha cheia de feridas, muito maltratada pela vida, que lhe falou: ‘Beija minhas feridas’! A Jovem hesitou um pouco, entre o desejo e a repulsa... e acabou beijando as feridas da velhinha, que logo ficou completamente curada, tornando-se uma jovem muito bela!
A mulher disse à jovem: ‘Como fizeste isto por mim, farei com que te tornes invisível às feras, de modo que nenhuma delas poderá te causar dano’. Na mesma hora, a jovem escutou a voz de um dragão gritando: ‘Quero carne! Quero carne!’ No entanto, como a fera não podia ver a jovem, continuou andando e se foi embora! Então a mulher deu à jovem um novo colar, mais bonito ainda do que aquele que ela havia jogado no rio!
E a jovem voltou à aldeia. Quando as outras moças a viram, ficaram surpresas e lhe perguntaram onde havia encontrado aquele colar tão bonito. E a jovem contou que, depois que elas haviam ido embora da beira do rio, ela havia escutado dentro de si uma voz dizendo para mergulhar na água e que, havendo mergulhado, encontrou uma gruta e dentro dela uma velhinha que lhe deu o colar!

As outras moças perguntaram o lugar exato onde ela se havia jogado no rio e todas foram correndo até esse exato lugar e aí mergulharam no rio! No fundo do rio, encontraram uma gruta e dentro dela uma velhinha cheia de feridas, muito maltratada pela vida, que lhes pediu para beijarem suas feridas. Mas as moças sentiram uma grande repulsa pelas feridas e se recusaram a satisfazer o pedido da velhinha. Nesse preciso momento, ouviram a voz de um dragão gritando: ‘Quero carne! Quero carne!’ E, como o dragão podia enxergá-las, devorou-as!

A Parábola da Jovem Zulu, é a parábola da busca de si mesmo, do auto-conhecimento e do crescimento, da busca da felicidade e do encontro da harmonia pessoal...

- Compare esta Parábola com a sua história pessoal de busca, com sua caminhada de auto-conhecimento e de crescimento pessoal.
- O que a Parábola lhe diz?

- A aventura daquela jovem começou quando ela jogou no rio o seu colar... o colar das exterioridades, das máscaras, das seguranças pessoais, dos apegos... esse foi o primeiro passo, indispensável! Perder algo de si... desapegar-se de algo! É o preço do auto-conhecimento e do crescimento! Às vezes a vida, por linhas tortas, nos traz a experiência de perda... e aí pode estar o início de uma aventura inesperada!
- Perder algo de si... o que significa isso para você?

- A Jovem caminhava triste pela margem do rio, quando ouviu uma voz dentro de si mesma que lhe dizia: ‘Atira-te à água!’ Talvez um dia, ou de vez em quando, haja uma voz falando dentro da gente: ‘Atira-te à água! Mergulha no rio! Mergulha dentro de ti mesmo! Vai no fundo do rio! Não fiques na superfície das águas!...
- Como tenho escutado essa voz dentro de mim mesmo?
- Que oportunidades tenho tido, ou tenho criado, para mergulhar dentro de mim mesmo?
- Como tenho aproveitado esses momentos?
- Como tem sido a experiência de mergulhar dentro de mim mesmo?

- No fundo do rio, ela encontrou uma gruta e quando entrou, descobriu uma velhinha cheia de feridas, muito maltratada pela vida. A velhinha na gruta do fundo do rio... é cada um de nós, nosso interior ferido e marcado, maltratado pela vida! É o nosso ‘Eu’, escondido, ferido, machucado... escondido lá no mais profundo de nós mesmos!
- Tenho consciência desse ‘Eu’ ferido, maltratado pela vida, escondido no mais profundo de mim mesmo?
- Como poderia descrevê-lo? (Imagine-se entrando na gruta, no fundo do rio, e descreva a ‘velhinha cheia de feridas’ que você lá encontra).
- Como o encaro e como me sinto perante ele?

- A velhinha lhe falou: ‘Beija minhas feridas’! Beijar as feridas... aceitar-se, abraçar-se do jeito que é! Beijar seu passado, seu jeito de ser, seus pontos fracos... aceitar-se do jeito que é!
- O que significa isso para mim?
- Quais são as ‘minhas feridas’?
- Sou capaz de as beijar?
- Como me sinto perante esse desafio?

- A Jovem hesitou um pouco, entre o desejo e a repulsa... e acabou beijando as feridas da velhinha, que logo ficou completamente curada, tornando-se uma jovem muito bela! As feridas acolhidas, as mágoas abraçadas, a vida assumida... se transformam! A aceitação do sofrimento e dor, gera a alegria de ser o que o que se é! E a vida se torna bela!
- Já experimentei isso na minha vida?
- Acredito nisso?
- Há feridas na minha vida que eu ainda não beijei?

- A mulher disse à jovem: ‘Como fizeste isto por mim, farei com que te tornes invisível às feras, de modo que nenhuma delas poderá te causar dano’. Na mesma hora, a jovem escutou a voz de um dragão gritando: ‘Quero carne! Quero carne!’ No entanto, como a fera não podia ver a jovem, continuou andando e se foi embora! O processo de auto-conhecimento, que passa pela auto-aceitação, nos torna verdadeiramente livres de nossos ‘dragões’. Tomar consciência de nossas ‘feridas’ e aceitá-las, nos torna sujeitos de nós mesmos e, por isso, capazes de liberdade em relação às tendências negativas que nos destroem por dentro.
- Como experimento isso na minha vida?
- Me sinto livre em relação aos meus dragões... ou ainda escravizado por eles?
- Quais são os dragões que ainda me escravizam?

- Então a mulher deu à jovem um novo colar, mais bonito ainda do que aquele que ela havia jogado no rio! Quando mergulhamos dentro de nós mesmos e beijamos nossas feridas, a liberdade interior nos dá algo de muito mais belo que aquilo que havíamos perdido para começarmos o caminho de busca de nós mesmos!
- Como percebo essa ‘beleza nova’ em minha vida?
- Que sinais concretos poderia descrever?
- Como me sinto ao perceber isso?

- As outras moças, com inveja pelo colar bonito daquela jovem, também quiseram mergulhar no fundo do rio! Também elas encontraram a velhinha cheia de feridas e maltratada pela vida... mas não tiveram coragem de beijar suas feridas! E foram devoradas pelo dragão!
- A tentação da felicidade fácil... fugindo do confronto consigo mesmo, fugindo do ‘olhar-se no espelho’ para enxergar suas feridas... a não-aceitação do que se é, a repulsa, a repressão, a luta contra si mesmo... o não querer ‘enxergar-se’, confrontar-se, aceitar-se, assumir-se...
- Não há crescimento verdadeiro, sem passar pelo conhecimento de si e pela aceitação do que se é! É preciso entrar na gruta do fundo de nós mesmos! É preciso encontrar-se aí com nosso ser ferido e maltratado pela vida! É preciso beijar as feridas... Não há outro caminho! Não há ressurreição sem cruz!
- E... quando não se enfrenta o desafio... os dragões acabarão, mais tarde ou mais cedo, devorando a vida!

Textos para rezar

Jo. 8, 31-32: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Salmo 139: Senhor, tu me sondas e me conheces:
sabes quando me sento e quando me levanto, de longe vês meus pensamentos.
Consignas minha caminhada e meu descanso e cuidas de todos os meus caminhos.
Não chegou a palavra à minha língua, e tu, Senhor , já a conheces toda.
Abranges meu passado e meu futuro, e sobre mim repousas tua mão.
Tal conhecimento é para mim demasiado misterioso, tão sublime que não posso atiná-lo.
Aonde irei para estar longe de teu espírito? Aonde fugirei para estar longe de tua face?
Se eu escalar os céus, aí estás; se me deitar no abismo, também aí estás.
Se me apossar das asas da aurora e for morar nos confins do mar, também aí tua mão me conduz.
Se eu disser: “Envolvam-me as trevas e, à minha volta, a luz se faça noite”,
as trevas não são escuras para ti: a noite é clara como o dia, e as trevas como a luz.
Tu plasmaste meus rins, teceste-me no seio de minha mãe. Graças te dou, porque fui feito tão grande maravilha.
Prodigiosas são tuas obras; sim, eu bem o reconheço.
Meus ossos não te eram encobertos, quando fui formado ocultamente e tecido nas profundezas da terra.
Ainda embrião, teus olhos já me viam; foram registrados em teu livro
todos os dias prefixados, antes que um só deles existisse.
Quão insondáveis, ó Deus, são para mim teus desígnios, quão grande é sua soma!
Pensava eu em contá-los, mas eram mais numerosos que a areia.
Adverti, então, que todavia estou contigo.
Sonda-me, ó Deus, e conhecerás meu coração! Examina-me, e conhecerás meus pensamentos!
Vê se estou no caminho da perdição e conduze-me pelo caminho perene!

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