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Os Meninos da Caverna

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Os meninos da caverna da Tailândia ou da caverna de Platão... os meninos da caverna somos nós, porque a caverna é dentro da montanha que nós somos. Dentro da montanha que nós somos - a montanha lugar bíblico do Encontro com Deus, também existe a caverna escura, sem luz e de pouco ar, sem alimento e de águas turvas. Somos os meninos da caverna que existe dentro da montanha que nós somos... mas também somos os mergulhadores que descobriram os meninos na caverna e somos também aquele treinador que jejuou e ensinou Meditação. E somos também o mergulhador que morreu porque o oxigênio acabou no caminho estreito e longo. E fazemos parte do Todo, onde todos se uniram numa onda de compaixão que a partir da Tailândia acordou o mundo.

Havia uma montanha e os meninos brincavam no pé da montanha, porque a montanha é a nossa vida e a vida é o lugar da aventura de brincar e ser feliz. Mas havia chuva... e os meninos se abrigaram na entrada da caverna, porque as ameaças da vida nos assustam e nos fazem encolher, porque temos medo da chuva... como temos medo da falta de amor, da falta de proteção e da falta de valorização. E os meninos que nós somos se refugiam na gruta, com medo da chuva. Mas a chuva aumenta e as ameaças nos encurralam cada vez, nas nossas cavernas, os vazios interiores, os labirintos ocos das nossas carências. E assim vamos descendo, caverna adentro, com medo da chuva, sem nos darmos conta que vai ser difícil poder voltar.

A caverna é o lugar do vazio, da escassez, da solidão, do sofrimento, da desconexão. A caverna é a Personalidade que cavamos desde meninos. E nela vamos entranhando, como quem se atola na lama, querendo apenas se defender. Até ficarmos sem ar e sem luz, desconectados da Essência, onde a vida é abundante e flui, como no pé da montanha. Foi para nos protegermos da chuva, que nos perdemos na caverna. E agora estamos aí, sem poder sair, por medo de nos afogarmos no caminho estreito. E aí ficamos, 9 dias – uma gestação, uma vida. E aí morreríamos, sem ar e sem luz, sem alimento... e sem água, porque – ironia da vida... enquanto não soubermos que isso se chama inconsciência, a mesma água que nos encurralou e impede de sair, é turva demais e imprópria para beber. Apenas algumas gotas caindo das estalactites nos permitem sobreviver.

O mergulhador que encontrou os meninos, entrou na caverna pela aventura, atraído pelos mistérios da caverna. E foi estendendo e seguindo uma corda, como segurança para poder voltar, porque precisamos de mapas seguros, para não nos perdemos ou ficarmos presos nas nossas cavernas, quando nelas mergulhamos atraídos pela sede que nos guia, pois a fonte tem sede de quem tem sede, como dizia Rumi. E precisamos de cordas que nos guiem, mapas e guias, sinais no caminho, para saber o caminho de volta. Espiritualidade sem autoconhecimento pode tornar-se alienação e autoconhecimento sem espiritualidade pode levar ao desespero - lembrava Pascal. Contam que acabou a corda que os mergulhadores estendiam ao longo de seu mergulho pelos meandros estreitos da caverna e, nessa hora, um deles veio à superfície respirar... e viu, na sua frente, os meninos na caverna.  Porque nos nossos mergulhos interiores, tem hora que os mapas terminam e os sinais acabam. As seguranças desaparecem. E somos apenas nós mesmos, no silêncio profundo de nós mesmos. E nessa hora precisamos respirar... e é no Sopro que a consciência se alarga e enxergamos o que já estava lá. Se a corda não tivesse acabado - dizem os mergulhadores, ela teriam passado adiante... e não teriam visto os meninos presos na caverna. Nesse instante em que o esforço humano termina e as técnicas e seguranças acabam... algo inesperado acontece, a consciência emerge, o campo sagrado age e o salto quântico se faz. A sede da fonte que tem sede de nós, se reconcilia com o esforço humano, e a pessoa se rende e se abre ao Sopro... que harmoniza e abre novo horizonte.

Eram doze os meninos, aquele número bíblico que representa para os judeus toda a Humanidade.   Talvez por isso o mundo se solidarizou com os meninos da caverna, porque em cada ser humano há um menino perdido na caverna. Mas eles não estavam sozinhos nem abandonados. Com eles estava alguém que havia, muito antes, procurado Deus e sabia das trilhas. Era treinador – de verdade, porque experimentou primeiro, porque fez o caminho e por isso sabe guiar pessoas. Ele fez jejum, porque jejuar purifica e alimenta mais. Meditou e ensinou a meditar, porque meditar aquieta. Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus - diz o Salmo 46. E a raiz hebraica de aquietar-se, significa ficar quieto, parar de lutar e relaxar. E saborear Deus... porque Deus está. Presente nas cavernas e nas montanhas... Deus está e se deixa encontrar. No lugar mais profundo de nossas cavernas, onde temos medo de ir e ficar, mas para onde a vida às vezes nos empurra, por medo da chuva. Jejum... não apenas para poder partilhar o alimento com os outros, mas para se alimentar mais do Sopro, do Espírito, da Energia Sutil e Vital, o Amor... que na Meditação se respira - porque o Espírito de Deus dorme na pedra, acorda nas flores, movimenta-se nos animais e torna-se consciente no Ser Humano, mesmo, ou de modo especial, no funda das cavernas. Assim como o umbigo nos lembra que o nosso corpo físico tem origem em outro organismo físico, a meditação é a consciência saboreada de que vimos de Deus e nEle Somos, existimos e nos movemos, unidos a Tudo e a Todos, no Todo.  E quando o treinador pediu perdão às famílias dos meninos, elas disseram que estavam com ele. E quando os meninos saíram, uma das mães falou que agora era preciso curar o coração do treinador. Compaixão, sofrer - com. Misericórdia, amor puro, abundante e gratuito, incondicional. Amor que desperta Amor, Amor que gera Amor.

Mergulhadores que descobrem os meninos presos na caverna. Guiados pelo indício das bicicletas abandonadas na entrada da caverna. Também existem mergulhadores dentro de nós. A fonte tem sede de quem tem sede - dizia Rumi. A intuição para o verdadeiro Ser, que nos guia de noite, no meio das sombras. Somos também mergulhadores de nós mesmos, guiados por estranhas bicicletas abandonadas na entrada da caverna. Quando algo que andava já não anda mais, desconfiamos que alguém se perdeu dentro de nós. E aí mergulhamos em busca de nós mesmos... e acabamos encontrando nas nossas cavernas as crianças que fomos. Como dizia Fernando Pessoa, a criança que eu fui, chora na estrada. Deixei-a ali, quando vim ser quem sou. Mas hoje, vendo que o que eu sou é nada, quero ir buscar quem fui onde ficou. Justamente aí, no fundo da caverna. Quando mergulhamos nas nossas profundezas, encontramos algo surpreendente: Vida... mesmo que ameaçada em crise.

Um mergulhador morreu... porque algo dentro de nós também morre, quando mergulhamos e tentamos nos resgatar. Faltou oxigênio na travessia... como falta às vezes nos nossos mergulhos interiores. Morre algo de nós, quando mergulhamos e falta ar. Porque o ar da Essência falta às vezes, nas passagens estreitas dentro de nós mesmos. Não se aventure a mergulhar quem tem pouco fôlego. Para mergulhar é preciso levar, pelo menos um pouco, de oxigênio da Essência.

Uma população solidária, o mundo em sintonia e prece. Famílias, um país, o mundo... olhares na montanha, onde havia uma caverna, onde estavam meninos.

Durante os dias do resgate, a chuva acalmou na região. Assim que o último mergulhador saiu da caverna, a bomba que retirava tua quebrou e a chuva voltou forte na manhã do dia seguinte e um dia depois a caverna ficou completamente inundada. Porque existe um tempo certo para cada coisa, debaixo do sol e também no fundo das nossas cavernas. Existe um tempo oportuno para mergulhar e resgatar nossas crianças perdidas. E, se não o fizermos no tempo oportuno, podemos pagar um preço alto por isso. Nunca é tarde para ter uma infância feliz, mas... quanto mais cedo, melhor! Quanto mais cedo aprendermos a mergulhar em nossas cavernas, menos distantes e menos inundadas elas estarão e o resgate será mais tranquilo. Mas há um tempo certo para cada coisa. O tempo de cada pessoa. Alguns lamentarão por não terem mergulhado mais cedo... e outros nunca terão nem a consciência de se lamentar.

A caverna protegeu, a caverna escondeu e colocou a vida em risco... mas, se não fosse a caverna, o mundo não teria entrado em contato com o melhor de si mesmo. Porque o melhor de nós mesmos, nasce das profundezas.

Compaixão. Sofrer - com. Misericórdia, o Hesed dos judeus, que vem do aramaico Raham - Rehem... que significa útero. O Amor que brota das entranhas. Deus é Amor, porque é misericórdia, o Amor maior. Somos imagem e semelhança de Deus, por isso somos Hesed. A nossa Essência. A Essência do mundo.  Que brotou para o mundo, a partir das entranhas da terra, do fundo de uma caverna, dentro da montanha.

Meninos que somos nós... na caverna da Tailândia – resgatados. Meninos por resgatar, nas jaulas dos Estados Unidos. Meninos fugindo da guerra na Síria – já mortos, como os meninos mortos nas favelas do Brasil... todos eles moram dentro de nós, alguns sem serem vistos... e por isso sem voz.

Os meninos da caverna ou os javalis selvagens... somos nós. Os meninos da caverna da Tailândia, são a parábola falada ao mundo. Olhar para a montanha, mergulhar na caverna... e resgatar o Amor que vem do útero, o Amor de Mãe, o que somos de verdade, na verdade mais profunda de nós mesmos, a natureza da nossa natureza, porque somos como Deus e Deus é Amor.

A cicatriz é o lugar por onde entra a luz – lembrava Rumi. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz - dizia Isaías profeta. Porque a luz e a sombra existem na montanha, dentro de nós. Porque a luz não está no final do túnel... a luz está dentro da caverna também.

 

E a caverna, mesmo sendo o lugar sem luz, é a condição para encontrar a Luz... e é a partir do útero da terra, que o Amor se espalha e encanta!

 

Domingos Cunha

Domingos Cunha