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UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

COMPARTILHAMENTO

 

Perguntei a um economista amigo meu, se seria possível, nos tempos de hoje, no atual cenário. Económico, uma empresa colocar em prática aquela já antiga sugestão da Doutrina Social da Igreja, como critério de justiça: participação dos empregados nos lucros da empresa. Ele me disse que sim... e disse mais: isso é também um fator de incentivo para que os colaboradores se sintam motivados e responsáveis pela empresa. E eu perguntei: que tal dividir 50% do lucro líquido da empresa?

Mas aí, ele riu da minha cara e disse: isso aí já é ilusão, poesia, sonho distante da realidade, conversa de padre ou coisa de comunista!

Que pena... pensei eu.

 

Um dia, fui convidado para facilitar um processo de ENEAGRAMA numa empresa. Na entrada vi uma placa grande e bonita com a missão do grupo:

contribuir para as pessoas realizarem sonhos, tornando o mundo melhor.

Conversa pra boi dormir - pensou o meu desconfiómetro.  Ou jogada de marketing... porque está na moda colocar umas frases bonitas ou uns slogans impactantes nas fachadas... tantas vezes em nada condizentes com a prática das instituições ou a cultura que elas vivem.

Mas, na mesma hora, lembrei da conversa com o motorista da mesma empresa, que havia me levado do aeroporto de Vitória do Espírito Santo até Aracruz. Ele perguntou o que eu ia fazer na empresa. Falei que ia fazer um negócio chamado Eneagrama... e ele disse que não conhecia, mas que já tinha feito Renascimento lá na empresa. E tem renascimento na empresa ? - perguntei eu surpreso.  Tem! Todos os anos tem, para quem quiser fazer!

Na mesma hora lembrei  que o dono dessa mesma empresa era um buscador. Ele havia conhecido o Eneagrama  no Centro de Vida Madre Clarice em Minas Gerais e depois eu o conheci pessoalmente num Retiro de Eneagrama em Fortaleza, no final de 2016. Ele e a esposa. Sabia, por ouvir falar, que ele era empresário. Confesso que, nesse Retiro, imaginei que fosse dono de uma pequena empresa de fundo de quintal... pela convivência de oito dias com um homem simples, no vestir e no falar e no jeito de estar, tanto ele quanto a sua esposa.

Mas agora eu estava aqui, na entrada da empresa... terminando de escutar que esta era a empresa mãe de uma grupo empresarial, com ramificações em várias áreas da atividade econômica e que esta mãe, apenas ela, tinha 4.500 colaboradores.

Entrei e vi, no enorme primeiro salão de acesso, muita gente trabalhando, cada pessoa em sua mesa, sem divisões entre as pessoas... e, como não sabia ainda direito qual era o trabalho da empresa,  fiquei surpreso com o clima agradável e o ambiente humano.

IMETAME. É o nome da empresa mãe. Indústria metalomecânica. Empresas filhas na área de extração e comercialização de pedras, energia, petróleo, logística e construção de um  porto de mar... e eu senti que eles mexem com metal e pedras, mas cuidam de pessoas.

O dono abriu o curso de ENEAGRAMA para um grupo de Diretores das empresa e algumas pessoas amigas, dizendo assim: este curso é para vocês. Eu fiz, gostei, me ajudou muito e eu quis proporcionar para vocês. É para o vosso crescimento pessoal. Não é para a empresa. Aliás, eu nem quero ouvir falar de eneagrama na empresa.

Ao longo do curso, fui ouvindo histórias nos bastidores, algumas mirabolantes, achava eu.

Disseram que a empresa dividia 50% do lucro líquido anual, com todos os colaboradores, seguindo critérios de tempo de casa e de função exercida na empresa. Era uma verdade demais para ser verdade. Conferi com o motorista que me levou de volta para o aeroporto no final do Curso. Um Tipo Oito, vai entregar a verdade - pensei eu! E entregou: Sim - disse ele, é o  programa Eu Sou Dono.  Este ano distribuiu trinta e oito milhões e tantos mil e muitos reais e tantos centavos - disse ele. É verdade - pensei eu. O cara sabe até os centavos. O colaborador que recebeu menos, embolsou R$ 2.000,00 e teve Diretor que recebeu R$ 200.000,00 e teve trabalhador de chão de fábrica que levou R$ 20.000,00.

Na mesma hora eu me perguntei o que os outros empresários fazem com os lucros... mas a conversa estava interessante demais e eu uns saber mais.

A empresa pergunta ao colaborador: quem é a pessoa que dá apoio e sustentação para você estar aqui todos os dias trabalhando connosco?  Alguns reverenciam a mãe, outros a esposa, ou o pai, ou o maridoE esse dinheiro do programa Eu Sou Dono, é depositado na conta dessa pessoas, como gesto de gratidão e homenagem. Agradável e boa homenagem, com certeza.

Há alguns anos que o programa funciona nessa base. Alguns aproveitam esse dinheiro para dar entrada na casa própria ou comprar um carro - continuou a minha fonte de confirmação de informações.  Mas tem gente que estoura tudo na hora e não sabe administrar. Inclusive, o dono percebeu isso e contratou uma economista para dar assessoria individual a cada colaborador que quisesse receber ajuda sobre como economizar e administrar.

Fiquei sabendo depois que, além disso, tem um tal de Quinhentão, um bónus mensal de R$ 500,00, para cada funcionário que não faltar nenhum dia ao serviço.

Me disseram também que a empresa tinha implantado a cultura de, no final do ano, ligar para os clientes e dizer que havia um presente que a empresa queria oferecer... e perguntar se o cliente aceitava que o valor correspondente a esse presente fosse convertido numa doação para uma família carente, cadastrada pela IMETAME, mas que seria feita em nome do cliente. E, dizia uma pessoa do RH, para surpresa nossa, os clientes ficam tão sensibilizados com a proposta... que ate dizem para aumentar o valor da ajuda, e eles cobrem o que falta. E assim tem famílias que ganham um fogão ou um geladeira, um telhado novo ou outra reforma na casa.

E tem até a história de um avião que a empresa comprou. Contratos de obras grandes em regiões distantes de Aracruz, levam funcionários da Imetame para o Maranhão ou Mato Grosso, para se unirem à mão de obra local. Esse povo passava meses sem voltar ao convívio da família em suas casas. Agora tem um avião da empresa, que a cada três semanas pega os colaboradores na quinta feira à noite,  lá na obra distante e transporta para o Espírito Santo, de onde parte de volta na segunda feira.

Junto com vários Diretores das empresas do grupo, havia gente do hospital. Descobri depois que a gente do hospital estava envolvida num outro projeto. Contaram que um dia um diretor falou com o dono pedindo ajuda financeira para a esposa fazer um exame médico particular, pois no hospital não havia possibilidade a médio prazo. Depois de ajudar o diretor, o dono pensou consigo: se um diretor meu passa por essa dificuldade... o que estará acontecendo com os outros colaboradores? E resolveu fazer uma visita ao hospital... e confirmou de perto a decadência e a falência. Resolveu mobilizar um grupo de empresários da cidade e outros amigos, que o chamam de Grande Líder, e constituíram uma equipe que hoje assume a gestão e reformas no hospital da cidade e também já de outra cidade vizinha.

Ouvi ainda e depois confirmei também como verdade, que ao fim de cinco anos de casa, cada colaborador ganha uma viagem com direito a acompanhante e tudo pago, para Buenos Aires ou Santiago do Chile. Aqueles que completam dez anos vão para Miami e completando quinze anos a  viagem é para a Europa. Em cada grupo de viagem, vai desde o peão de obra até o diretor... e o dono e a esposa acompanham cada grupo.

Quando a empresa fecha um contrato significativo, há um sino que toca e todos se reúnem no pátio, onde a nova benção - como eles chamam, é anunciada. Todos vibram juntos e batem palmas e essa manifestação é gravada em vídeo e enviada para o cliente, como símbolo de que todos na empresa estão comprometidos em fazer o melhor.

No meio de um curso de ENEAGRAMA, me chamaram fora da sala e me pediram para dar uma parada às 9.45h, pois nesse horário precisavam fazer uma comunicação ao grupo. E nessa parada, os Diretores presentes anunciaram: neste exato momento, a nossa empresa do ramo de petróleo está produzindo a primeira gota de combustível em Mossoró e todos somos convidados a agradecer esta benção. Bateram palmas, pularam e gritaram como uma torcida de futebol comemorando o gol... e depois rezaram um pai-nosso de mãos dadas, segundo o costume da empresa.

Na segunda turma de Eneagrama, o dono e a esposa participaram também. Eu conhecia o casal, mas se eu não conhecesse, nem iria desconfiar que eram os donos, pela postura aberta, horizontal e simples e pelo  à vontade com que participaram do curso e pelo ambiente de liberdade que os outros participantes manifestaram. Além disso, a partilha vivencial profunda do casal, espalhou no grupo um clima profundamente humano, de abertura e de confiança.

O entusiasmo com as transformações que os primeiros cursos geraram na vida dos colaboradores e no clima da empresa, gerou o sonho de espalhar para todos os colaboradores das empresas a experiência do Eneagrama. A cada turma, cresce o nível de interesse e confiança, abertura e entrega, profundidade, partilha de vida e respeito, num clima de compaixão de cada um por si mesmo e pelos outros. Um ambiente de família alargado às famílias dos colaboradores e a outras pessoas da cidade. Um espírito forte e marcante que sustenta uma cultura empresarial que cuida das pessoas e investe para que elas realizem seus sonhos e contribuam para um mundo melhor.

Um dia o dono me disse que o sonho dele era levar o ENEAGRAMA para outros setores e sociedade local, inclusive para o Presídio. Falei do meu entusiasmo pelas experiências que tive fazendo este trabalho em casas de detenção. Ele me falou que visitava regularmente o presídio da cidade, integrando a Pastoral Carcerária e que sempre procurava integrar na empresa ex-detentos, sem que na própria empresa alguém soubesse do histórico dessas pessoas. E citou o nome de um, para surpresa de outros colaboradores presentes, que  atualmente exerce função de encarregado.

 

Um outro mundo é possível. Sempre saio de lá com a esperança renovado nesse ideal.

Lembro aquela  frase de Pierre Weill que um dia me chocou quando li: as empresas são as catedrais do futuro. A experiência na Imetame, o contato com o espírito que sustenta este grupo, me mostrou que esse futuro chegou.

Era nas antigas catedrais e nos mosteiros e nas Igrejas em geral, que durante séculos as pessoas tinham acesso a vivências mais profundas, cultivando o sentido da vida, desenvolvendo-se como sés humanos e espirituais. Muitas pessoas hoje não teriam oportunidade de vivenciar esses processos, a não ser nos espaços que empresas como esta proporcionam.

Acredito que a visão de um líder habitado pelo bom senso e pelo senso de humanidade e justiça, diz que esta cultura empresarial é uma condição de sobrevivência e um caminho sustentável de crescimento para a própria empresa. Diziam os gregos antigos que quem pensa a curto prazo cultiva cereais e quem pensa a médio prazo planta árvores... mas, quem pensa a longo prazo investe em pessoas. Os conhecimentos teóricos  e a tecnologia estão cada vez mais ao alcance de todos e disponíveis para quem tem dinheiro. Mas o diferencial de uma instituição,  passa hoje pela qualidade humana de seus colaboradores. As empresas contratam pelos habilidades técnicas... e as pessoas são despedidas pela falta de habilidades comportamentais. No Brasil, dizem que 82% dos desligamentos acontecem por causa dessa limitação. Howard Garden, o homem das Inteligências Múltiplas, diz que uma pessoa ruim nunca poderá ser um bom colaborador. Mas uma pessoa que se torna mais humana, torna-se também uma pessoa boa, um bom colaborador e um bom companheiro de equipe, uma pessoa feliz com sua família e seus amigos. As pessoas passam a maior do seu tempo útil no ambiente de trabalho e o ambiente que aí vivem, é determinante para sua qualidade de vida.

A Imetame entendeu isso e acredita nisso e investe na qualidade de vida das pessoas e cresce também e assume seu papel de responsabilidade social na transformação da sociedade e  como referencia simbólica que essa cultura pode ser para o mundo de hoje.

Um outro mundo é possível.

E, há poucos dias, no final de mais uma turma de ENEAGRAMA na Imetame, quando o clima de profundidade, abertura e respeito, compaixão e sensibilidade chegou a níveis raramente atingidos em outros ambientes... olhando o grupo onde Diretores da empresa  se misturavam,  num clima de horizontalidade, com colaboradores de outros escalões e várias pessoas externas à empresa que haviam sido convidadas, como familiares de colaboradores, gente de Aldeias Indígenas, pessoas de vários setores da sociedade e até o Padre da cidade - o Pastor não pôde participar por imprevisto de última hora... eu olhava este grupo e o meu coração sussurrava a profecia de Pierre Weill: esta empresa é uma catedral no presente.

 

 

Domingos Cunha

 

Pe. Domingos Cunha, CSh