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METADE DE MIM É LUZ... E A OUTRA METADE TAMBÉM VAI SER.

COMPARTILHAMENTO

 

 

 

Existe algo supremamente bom, grande e superior a todas as coisas.

Santo Anselmo

 


Quem mora dentro de mim?

Há mil lugares para você conhecer durante a vida. E o primeiro e mais importante...e inolvidável... É você! E é alto o preço se não fizermos essa viagem... Porque todo mundo morre, mas nem todo mundo vive. E já cantava Belchior: deixemos de coisas, cuidemos da vida, senão vem a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço, sem ter visto a vida.  Uma viagem pelo seu interior, trilhando seus labirintos interiores, encontrando e conhecendo e convivendo com seus vizinhos internos, ilustres desconhecidos, seus habitantes ancestrais, assistindo o teatro dos atores que habitam você e tramam a teia da sua vida.

O ser humano é habitado por todos os reinos e concilia todas as dimensões e planos do universo. Há rios e oceanos que nos atravessam, há pedras e montanhas na nossa dimensão de argila, bem como florestas, o reino vegetativo de nosso interior, habitado por animais de nossa dimensão instintiva e libidinal - nos fala Roberto Crema.

Eu sou vários. Há multidões em mim. Na mesa da minha alma sentam-se muitos e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado, eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a você mesmo - assim fava Nietzsche.

No Ensaio sobre a Cegueira, Saramago lembra que dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Porque a vida é uma viagem... Mas não se contente em ser mala!

Visite você mesmo... antes que você acabe... Porque metade de você é luz... E a outra metade também pode ser!

Se não encontrar dentro de você um lugar confortável para repousar e ser feliz, você passará a vida andando pelas periferias de você mesmo e dormindo nas ruas de seus Eus abandonados...

Para que os ramos de uma árvore possam tocar os céus, as suas raízes precisam tocar os infernos - dizia Jung. Porque somos luz e sombra, pó e sopro, terra e céu, e entre o céu e a terra que somos, habitam anjos e demônios.

Toda a viagem interior começa pela consciência daquilo que somos, pelo conhecimento do território, pelo mapeamento de nossas trilhas, planícies e abismos. Conhecer o mapa, seguir os itinerários e deixar-se surpreender, porque o território é sempre além do mapa. E depois acolher o que a jornada nos traz. Acolher as sombras e respirar a luz. Respirar a sombra para sentir o cheiro da luz. Porque o ser humano não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas abraçando as suas sombras,  como dizia Jung. E todo mundo fica bonito com uma boa luz... E ela vem de dentro!

E Tomás de Aquino dizia que quanto mais eu vou ao encontro de mim mesmo, mais descubro  dentro de mim um Outro que não sou eu, mas que no entanto é o fundamento do meu existir.

Não penseis que havereis de entrar no céu, sem antes entrar dentro de vós mesmos, a fim de conhecer e considerar a vossa miséria - já lembrava Tereza de Ávila.  Porque metade de mim é luz... E a outra metade é caminho para a luz.

Diz o Apocalipse de João (12, 7-8) que houve uma batalha no céu: (Ap 12,7-9) Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado; e eles perderam seu lugar no céu. Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga Serpente, que é chamado Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele foi expulso para a terra e os seus anjos foram expulsos com ele.

O Céu é dentro da gente e anjos e demônios o habitam. E nele, anjos e demônios duelam. Mas o bem é maior e prevalece, porque somos luz e a sombra apenas sinaliza o caminho. Porque Deus está e Deus é, de forma misteriosa, silenciosa e amorosa dentro de nós, como o silêncio inominável da obscura claridade, como diz Dionísio, o Pseudo Areopagita.

Anjos são manifestações de Deus, expressões de sua Luz, imagens simbólicas para dizer o indizível da manifestação de Deus que somos e somos chamados a resgatar. Anjos são espelhos do que somos de verdade e podemos ser de fato. Anjos são mensageiros da Divindade para cooperar com Ela na obra do mundo. Anjos são a imagem de Deus que somos e o espelho que também somos onde Deus se torna visível. Anjos somos nós, na Essência. Mas também há Dragões dentro de nós. E os dragões eram anjos que se revoltaram contra Deus, como a parte de nós que se desconectou da Essência.  Demônios são as nossas sombras, a Personalidade que nos separa da Essência, são energias (daimon), cuja função primordial era proteger a essência, por isso eram Anjos. Mas acabaram nos separando da luz... E assim viraram diabos. Diabolos - aquilo que separa, porque símbolos é aquilo que nos une, o estado de inteireza, de comunhão com o Uno. O Dragão, como imagem daquilo que ataca e incomoda, atrapalha e afasta. Mas o Dragão ataca porque está assustado e quer proteger a Essência. Ele é feroz porque a Essência é valiosa. Mas a luz é maior. E por isso, na arte dessa guerra, a estratégia é de Santa Marta, porque S. Jorge errou o caminho e se deu mal.

Conta a Lenda que apareceu um dragão na vida de S. Jorge. Algo incomodou o Santo e ele lutou, enfrentou o dragão e o matou. Mas, reza lenda que logo depois apareceu outro dragão e logo o santo lutou novamente contra ele e o matou. E depois apareceu outro e outro... E a moral da história diz que S. Jorge passou a vida lutando contra dragões: matava um, aparecia outro. Perdeu o tempo e gastou a energia. Porque S. Jorge não entendeu aquela parte do Evangelho onde Jesus falou que um Reino dividido contra si mesmo, não subsiste.

Mas tem a Lenda de Santa Marta, que entendeu a arte de domesticar dragões. Apareceu um dragão na vida dela também, mas a Santa, seguindo a intuição do feminino que acolhe e integra, conseguiu domesticar o dragão. E reza a lenda que depois o dragão andava seguindo ela como se fosse um guarda costas. Unificou o céu dentro de si e onde antes havia guerra, agora pode saborear a unidade, a inteireza, a harmonia e o equilíbrio, o gozo do Bem e do Bom.

Rubem Alves arranjou um namoro entre S. Jorge e Santa Marta, fazendo a releitura das lendas: acordava S. Jorge todo o santo dia, bem cedo, animado e motivado, colocava a armadura e montava em seu cavalo, para ir lutar com o Dragão. E voltava feliz para casa, por cumprir a sina de matar um Dragão por dia. Mas um dia, triste dia, quando chegou entusiasmado ao lugar onde o Dragão sempre estava, havia apenas uma donzela, uma linda donzela dançando. E S. Jorge ficou decepcionado, porque não ter com quem lutar. E ia voltando, quando a donzela disse com voz sedutora: Jorginho, vem dançar comigo!

Porque a cicatriz é o lugar por onde entra a luz - já dizia Rumi. E Santa Catarina de Sena lembrava que o caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o autoconhecimento.

Porque a vida é que nem fotografia: a gente transforma a partir dos negativos.

Deixar de lutar. Essa é a arte da guerra. Ou a arte da paz, da inteireza. Porque, como cantava Belchior, amar e mudar as coisas me interessa mais. E o Amor puxando, tem mais força que a dor empurrando. O Shalom, que na sua raiz hebraica significa a última pedra que se colocava numa construção, sinalizando que a paz nasce quando estamos inteiros e cada pedra encontrou e assumiu o seu lugar dentro de nós... E aí poderemos nos tornar aquela pedra que completa a grande construção do mundo.

O filme como domesticar os seus dragões, começa com a lamentação dos habitantes: moramos numa ilha onde somos atormentados por dragões e passamos a vida lutando contra eles.  E termina com a bela declaração: moramos numa ilha maravilhosa onde os dragões nos levam para passear! Essa ilha existe dentro de nós e nós podemos e precisamos decidir se queremos passar a vida lutando contra os dragões ou deixando-nos levar por eles para passear... Porque os dragões sabem o caminho para a Essência e podem nos levar para saborear seus horizontes paradisíacos. A tarefa primeira e maior... É aprender a linguagem dos dragões, domesticá-los e ficar de boa com eles, numa parceria de respeito mútuo.

Conta a lenda dos índios Cherokee, que o menino correu para casa assustado e desabafou com o avô que estava cm muita raiva porque o coleguinha fez injustiça com ele no meio da brincadeira, e o velho avô acolheu o menino no colo e disse que era assim mesmo, que a gente sentia raiva e podia sentir outras coisas mais. Porque dentro de nós existem dois lobos - continuava o avô explicando ao seu neto: um lobo bom e um lobo mau... e esses dois lobos vivem brigando dentro de nós. E foi aí que o netinho, intrigado, perguntou: e ai, vô, quem ganha a luta?! E o velho sábio respondeu: trate bem o lobo mau, para que ele não ataque você... Mas alimente mais o lobo bom, para que ele ganhe a luta.  A nossa cultura, que aprendeu apenas a arte de S. Jorge, mudou o final da conversa, dizendo que vai ganhar a luta aquele lobo que você alimentar mais, deixando nas entrelinhas que podemos ou até precisamos matar o lobo mau. Mas o velho índio era amigo de Santa Marta e o saber de experiência feito lhe ensinou outra história.

Evágrio resumia este fio condutor da Sabedoria do Deserto - e que perpassa toda a espiritualidade cristã ou até todas as tradições espirituais, comentando o texto de Lucas, onde um Rei saiu com dez mil homens para guerrear com outro que vinha contra ele com vinte mil. E sabendo que não tinha condições de ganhar a batalha, antecipou-se, enviando um mensageiro de paz e fez um acordo. E assim, lembra Evágrio, além de evitar a derrota, ele passou a ter trinta mil homens a seu favor. Essa é também a lógica da parábola do trigo e do joio que Jesus conta no Evangelho: deixa crescer o joio junto com o trigo, porque o campo que nós somos tem luz e sombra, capim e coisa boa. Aceite a realidade, aceite a vida do jeito que ela é. Cuide do trigo, sem gastar sua energia lutando contra o joio, porque a luz é que vale. Não passe a vida maldizendo as trevas, mas descubra a centelha divina de luz que existe em você e cuide dela. No final, separe o joio do trigo. Simples assim. Apenas isso. A gente que complica. Porque o mesmo Jesus já tinha falado: não resistais ao mal... Não luteis contra, não gasteis energia com ele... Porque sois Filhos da Luz e foi para a liberdade que fostes criados e libertados.

Crescer dói... Porque dói abraçar a sombra. Mudar dói também. Mas nada será mais doloroso do que permanecer preso a um lugar onde a felicidade não é de verdade.

Fazer a paz dentro de nós, o Shalom, com cada pedra no seu lugar, completando a construção onde Deus habita. O Reino de Deus é a presença de Deus em nós, o lugar interior onde Deus nos habita e se deixa encontrar e nos surpreende.

Pensavas que eras pó e agora começas a descobrir que és Sopro - dizia Rumi.

É pelo Sopro, pela respiração consciente, que se entra em contato com o Reino de Deus... Ou, mais ainda, como diziam os Essênios, a pausa da meditação é a porta de entrada no Reino de Deus. A Consciência do Sopro, a respiração consciente, a comunhão com o Sopro, o Uno, o Bem e o Bom. Porque o Espirito de Deus dorme na pedra, acorda nas flores, movimenta-se nos animais e torna-se consciente no Ser Humano.

A Essência nos foi dada, gratuitamente. A Personalidade foi construída por nós, de forma inconsciente, como a loucura que precisamos inventar para sobreviver - na fala de Claudio Naranjo. Mas a Consciência... É desafio de construção nossa, a ser feita ao longo da vida. Para isso estamos aqui e é isso que daqui poderemos levar. Tarefa inalienável. A Consciência que observa, integra e harmoniza a Personalidade e a Essência, numa dança permanente onde luz e sombra, de mãos dadas, fazem a beleza da vida.

Porque para além do certo e do errado, existe um campo sagrado -  como lembrava Rumi. E é o Sagrado, aquele Sagrado que nos habita e deifica, é Ele e apenas Ele, de forma gratuita e abundante, que ilumina e tira os véus, reintegra e harmoniza tudo em nós e nós no Todo.

Lembrava o Abade Alônio que o Ser Humano nunca terá paz enquanto não descobrir que está só no mundo, só ele e Deus.  Porque tudo está dentro e o que está fora é reflexo do que está dentro e a guerra que vemos fora é apenas o transbordar daquilo que está dentro, assim como a paz começa dentro e de dentro transborda.

Dizia Santa Paulina: a presença de Deus me é tão íntima que me parece impossível perdê-la . E essa presença causa na minha alma uma alegria que não consigo explicar.

Voltar ao Paraíso... Quem não desejaria?! Um instante já é quase tudo, um instante já é plenitude - diz o mantra da irmã Claudiana e quem já experimentou sabe, de saborear, que é verdade. Porque a vida pode ser uma delicia... Mas a gente vive de dieta!

Metade de mim é Luz... E a outra metade é caminho para a luz! 

Domingos Cunha


Pe. Domingos Cunha, CSh