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A sabedoria do oásis
Um jovem chegou na beira de um oásis, junto a um pequeno povoado. Aproximou-se de um velho sábio e perguntou:
- Como são as pessoas que vivem neste lugar?
- Como são as pessoas que moram no lugar de onde você vem? – perguntou o sábio.
- Oh... um grupo de egoístas e safados – respondeu o rapaz. Estou feliz por ter saído de lá.
- E o velho sábio replicou: o mesmo tipo de pessoas você irá encontrar por aqui!
No mesmo dia, um pouco mais tarde, um outro jovem apareceu junto do oásis. Aproximou-se para beber água e encontrou o velho sábio. Fez a mesma pergunta:
- Como são as pessoas que vivem neste lugar?
O velho sábio respondeu com a mesma pergunta:
- Como são as pessoas que moram no lugar de onde você vem?
O rapaz respondeu: - pessoas maravilhosas, amigas, honestas, acolhedoras... Fiquei muito triste quando precisei me separar delas.
O mesmo tipo de pessoas você encontrará por aqui! – respondeu o velho sábio.
Um outro homem, que havia escutado as duas conversas daquele sábio, perguntou admirado:
- Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?
E aquele velho sábio, respondeu serenamente:
- Cada um carrega em seu coração o meio em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa diferente neste lugar. Aquele que encontrou amigos nos lugares por onde andou, também os encontrará aqui... porque, na verdade, a gente só encontra aquilo que tem capacidade de enxergar e a gente só enxerga nos outros e nos ambientes aquilo que existe dentro de nós!
- O que esta parábola me diz?
- Que luz ela pode me dar a respeito do meu relacionamento com as outras pessoas?
- Como me senti ao ler e refletir esta parábola?
- Só vemos nos outros aquilo que existe em nós; e o que se diz dos outros é aquilo que cada um possui ou pelo menos intui. Se uma pessoa não possuísse as características que aponta nos outros, não poderia percebê-las, pois não as conheceria. Eu sou como digo que os outros são! As qualidades que eu valorizo nos outros são aquelas que eu possuo, pelo menos em potência, e que eu admiro em mim mesmo. Os defeitos que me incomodam nos outros são os mesmos que eu tenho, mas que às vezes não percebo ou não quero admitir.
- Os outros, no relacionamento, são espelho para mim. As atitudes dos outros despertam em mim 'feridas' adormecidas ou inconscientes. Isso é geralmente doloroso. Mas aí está uma grande oportunidade de nos conhecermos melhor e tomarmos consciência de novas dimensões de nossa personalidade. Aquela pessoa que nos incomoda profundamente... na realidade está sendo para nós a grande oportunidade para nos conhecermos melhor! Seria mais cômodo a gente se afastar dela... mas amanhã encontraremos no caminho uma outra pessoa que irá fazer acordar em nós a mesma ferida. Por isso, quando alguma pessoa ou determinada atitude de uma pessoa provoca em nós uma reação exagerada, quando mexe muito conosco e nos causa grande sofrimento... chegou a grande oportunidade de nos perguntarmos: porque isso mexeu tanto comigo? Certamente poderemos encontrar aí um grande manancial de autoconhecimento. Quando vamos ao dentista e ele mexe em nossos dentes... tudo acontece normalmente, até ao momento em que ele mexe em determinado dente... e sentimos uma dor horrível. Por que sentimos dor? Pelo fato de o dentista Ter mexido no dente... ou pelo fato de termos aquele dente estragado? Basta a gente analisar por que determinadas atitudes de determinada pessoa mexem tanto comigo e não provocam a mesma reação em outras pessoas...
- Meu melhor mestre é meu pior inimigo. Na realidade, as pessoas que mais nos incomodam, elas nos prestam a ajuda maior em termos de autoconhecimento e possibilidade de crescimento. Elas acordam continuamente nossas feridas e por isso mesmo criam para nós grandes oportunidades de crescimento, se formos capazes de olhar as coisas por esse lado, o que, certamente, não é o caminho mais fácil nem o mais agradável! Poderemos dizer ainda que quanto mais imatura for a outra pessoa, melhor espelho ela é para nós! Uma pessoa imatura funciona para nós como aqueles espelhos de aumento, onde até os poros da pele se tornam visíveis... pois suas atitudes exageradas mexem naturalmente muito mais conosco.
- Na realidade, não são os outros que provocam sentimentos em mim! Eles apenas acordam em mim determinadas feridas que provocam determinados sentimentos! Na realidade, os outros não me ferem, não me machucam, não me tiram do sério, não me fazem sofrer... eu é que me deixo ferir, me deixo machucar, me deixo sair do sério... quando os outros acordam em mim certas feridas. Quando uma atitude do outro mexe muito comigo, eu estou vendo no outro aquilo que eu sou e não aceito, ou aquilo que eu reprimo inconscientemente, ou aquilo que eu gostaria-deveria ser mas não consigo expressar, ou aquela dimensão da minha personalidade com a qual eu não sei lidar, ou aquilo que em outros tempos eu fui, ou algo que no passado me fez sofrer muito!
- Uma grande pergunta para cada um se fazer a si mesmo: eu vivo agindo ou reagindo? Quando eu tomo determinada atitude ou tenho determinada reação porque o outro me provocou e eu 'dou o troco' automaticamente, eu estou reagindo. Na realidade, é o outro quem está conduzindo a minha vida... e eu apenas vou reagindo, ao sabor dos acontecimentos e das atitudes dos outros, como se fosse uma marionete. Quando o outro me provoca e desperta em mim determinado sentimento e eu, tomando consciência desse sentimento o integro e consigo tomar uma outra atitude, de acordo com uma opção pessoal feita em cima de meus valores, aí sim, eu estou agindo, como pessoa livre! Continuo tendo esses sentimentos... mas não estou escravizado por eles!
- Geralmente eu firo onde fui ferido. A maneira como geralmente eu 'ataco' e firo os outros... é o modo como eu fui ferido. Se prestarmos atenção na maneira como habitualmente ferimos os outros, se identificarmos o jeito como costumamos agredir e atacar... teremos aí uma grande chave de leitura para descobrir nossas feridas mais profundas! É bom prestar atenção naquilo que faço quando firo alguém ou perguntar de que as pessoas se queixam a meu respeito. Descobrir e identificar nossas feridas é de grande importância para um relacionamento sadio e harmonioso, conosco e com os outros.
- Uma das grandes tentações é a pessoa escolher colaboradores ou amigos que se lhe assemelhem: pessoas que pensem, sintam e ajam de forma parecida com a nossa, até porque essas pessoas nos são, à partida, mais simpáticas... sobretudo quando elas explicitam os mesmos aspectos negativos que, consciente ou inconscientemente, existem em nós! Claro que, quando meu companheiro é semelhante a mim, nossas capacidades se multiplicam por dois... mas o problema é que também minhas deficiências serão duplicadas! A atenção dos dois se volta para aquilo que os apaixona... mas haverá um mundo de coisas que serão deixadas de lado... e a eficiência e equilíbrio serão altamente prejudicados!
- Os sentimentos negativos que alimentamos em relação às outras pessoas... têm efeito bumerangue: recaem sobre que os lança! Nós somos os grandes prejudicados ao alimentar esses sentimentos ou, pior ainda, em reprimi-los dentro de nós! É como espremer dentro de nós mesmos vidros que guardam veneno!
- Nossa vida é um campo minado. Quando pisamos em determinada área e ela se mexe... podemos cavar, pois certamente aí encontraremos alguma bomba não detonada. Aquele assunto que nos incomoda, aquele aspecto que desperta em nós resistência, aquilo que recusamos encarar, aquilo que desperta vontade de passar adiante... isso certamente mexe com alguma área sensível de nossa personalidade! É preciso fazer aí uma parada, aprofundar, deixar os sentimentos aparecerem... e cuidar da ferida que aí se esconde!
- Podemos perceber facilmente a riqueza e o potencial de ajuda que o relacionamento interpessoal representa para o nosso autoconhecimento e crescimento! Ele é realmente a grande escola do tornar-se pessoa!
De todos estes pontos... qual o que mexeu mais comigo, ou chamou mais a minha atenção, ou me incomodou mais?
- Por que?
- O que isso me diz?
Cultive este exercício pessoal, nos momentos em que se sentir muito afetado pela atitude de alguma pessoa:
- Que sentimentos a atitude dessa pessoa despertou em mim?
- Por que senti tudo isso?
- Qual a minha ferida que essa atitude despertou?
- Como aceito essa minha ferida?
- O que posso fazer para cuidar dessa ferida?
Faça uma lista das pessoas que mais incomodam você e das atitudes dessas pessoas que mais 'tiram você do sério'. Depois, reflita sobre isso:
- Será que eu tenho essas mesmas atitudes? Ou já tive? Ou sofri muito por ter tido atitudes semelhantes? Ou reprimi em mim atitudes desse tipo?
- O que essas atitudes acordam em mim?
- Eu serei assim? Como? Quando
Lembre situações em que você feriu alguém. Reflita sobre isso:
- Como feri?
- A quem eu firo com mais frequência?
- Onde feri? Qual é o ponto fraco que eu ataco?
- Com que instrumento firo? (silêncio, crítica, indiferença, força física ou verbal?)
- Como me sinto quando firo alguém?
- Que justificações costumo utilizar quando firo alguém?
O que isto me diz a respeito de minhas feridas?
Lembre situações onde você 'reagiu' (onde você se deixou levar pelos sentimentos que a atitude de alguém acordou em você):
- Qual foi a atitude do outro que 'provocou' minha reação?
- O que isso me diz a respeito de minhas feridas?
Lembre agora situações em que você conseguiu 'agir' (a atitude de alguém despertou em você sentimentos 'negativos'... mas você conseguiu tomar consciência deles, integrando-os, agiu de acordo com seus valores):
- O que me ajudou nesse momento?
- Consigo identificar muitas situações dessas em minha vida?
- O que isso me diz?
- O que predomina mais em minhas atitudes: 'ação' ou 'reação'?!
Domingos Cunha, CSh.
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