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Os Mitos da maturidade humana

Há três mitos que da Grécia antiga nos trazem símbolos fortes! Também na área do crescimento humano esses mitos nos proporcionam luzes! A partir desses mitos, olharemos ‘tentações’ fortes que se nos apresentam neste campo.

  • O Mito de Prometeu:  reza o mito que Prometeu roubou do Céu o fogo dos deuses. O fogo simboliza a capacidade de transformar as coisas! Dominando o segredo de transformar as coisas, já não precisaremos mais de Deus... pois agora nós mesmos fazemos o que os antigos achavam que só Deus podia fazer!
  • Também no campo do crescimento humano, este mito se faz tentação: quando acreditamos em soluções mágicas, em  segredos que por si  mesmos transformariam nossa personalidade num passe de mágica! Quando acreditamos que esse ‘fogo mágico’ poderá transformar  todos os nosso defeitos e dificuldades, tornando-nos  deuses! Quando acreditamos que  esse ‘fogo mágico’ será capaz de  fazer a alquimia que  nos faz deixar de ser humanos – frágeis, limitados, vulneráveis... para nos tornarmos como ‘deuses’: invulneráveis, perfeitos, onipotentes!

  • O Mito de Sísifo:  fala o mito, que essa figura carregava uma pedra até ao alto de um monte, curvado sob o peso, encosta a cima... e, quando o cume da montanha  quase se deixa tocar, nosso herói sucumbe sem forças e a pedra cai sobre ele e o esmaga sem dó nem piedade!
  • Talvez esta seja  a maior de todas as tentações na caminhada do crescimento!  A tentação do esforço pessoal,  a tendência  do auto-controle, da censura, da cobrança cega... perseguindo a perfeição pessoal! Carregamos nossos pesos, o peso de nossas marcas pessoais... lutamos contra elas, na ilusão de destruí-las... querendo chegar no topo da montanha, que  resolvemos chamar de ‘perfeição’! Conseguimos, durante algum tempo, carregar esses pesos, na base do esforço. Concentramos   aí nossas energias sobre-humanas. Alguns resultados nos animam  a continuar... mas, quando  estamos chegando no topo da montanha... o descalabro  se torna inevitável: acabamos destruídos pelas energias que tentamos reprimir durante tanto tempo! A  procissão de penitentes é engrossada continuamente continuamente pelos neuróticos que se entregam à ilusão de Sísifo!

  • O Mito de Narciso: conta-se deste personagem que se encantou por sua própria imagem refletida no espelho de água do lago... e aí ficou contemplando sua própria beleza! Deixou de lado o ‘fogo’ e  desistiu de carregar a ‘pedra’... entregando-se à consolação egocêntrica de olhar para o próprio umbigo, mergulhando em si mesmo e  alheando-se de tudo e de todos à sua volta!

    Nosso tempo idolatrou a figura de Narciso e a  elevou ao mais alto dos altares! O narcisismo é cantado em verso e prosa como caminho de realização e felicidade! Fechar-se em si mesmo e buscar no seu egocentrismo a sua identidade última! O individualismo acima de tudo e antes de tudo. E os narcisos modernos se deleitam satisfazendo seus próprios caprichos, satisfazendo suas necessidades  sem critério, vivendo o prazer imediato a qualquer preço, descartando tudo o que  cheira a sofrimento e pressupõe encarar a dor. É a tentação de viver ao sabor dos sentimentos, de curtir sem conseqüências e responsabilidade para com o futuro. Crescer... não interessa! Viver... do jeito que der – isso é tudo! Por hoje... e hoje é tudo!

Andam por aí, as pessoas do nosso tempo! Andamos por aí, todos nós humanos, para quem ser humano é  realidade difícil de ser aceita! Fomos Prometeu e fomos Sísifo... e  muitos acabamos nos tornando Narcisos!

Mas terá que ser assim... sempre que enfrentamos a tarefa do auto0-conhecimento e do crescimento humano? Estamos condenados a acabar voltados para nós mesmos... depois da frustração de Sísifo e de Prometeu?!

Certamente que não! Podemos  experimentar um outro caminho: ser humanos!

Me lembro daquela menina que, anos depois de  prolongado esforço pessoal tentando se aperfeiçoar... chegou arrasada e descarregou de uma vez: ‘me diga! Me diga por favor: porque isto aconteceu comigo? Porque eu estava indo tão bem e tive esta recaída?’ E eu disse maliciosamente:’Não sei... com você, não sei... nós, humanos, somos assim!’

Me lembro também daquele rapaz que passara anos grandes de sua vida rezando para que Deus dele tirasse o medo...e  quando acabou se resignando, por sentir  que Deus não ouvira suas preces e isso era sinal de que Deus não o queria no lugar a que se sentia chamado... desabafou comigo o peso de seu fardo! E eu lhe disse apenas: ‘Você é muito pretensioso!  Deus não tirou o medo de Jesus... e iria tirar de você?’ ... e ele acabou percebendo que não precisava deixar de sentir medo para ser feliz e seguir seu caminho!

Ao nascer, ‘assinamos ‘ um contrato irreversível e irrevogável. Nesse contrato, além de outras cláusulas, reza que, ao longo de nossa existência nos depararemos com obstáculos e problemas,  como doenças, reveses de toda a  sorte, acidentes e outros imprevistos.  No mesmo contrato, fala ainda que, como seres humanos, somos por definição imperfeitos e contraditórios; sujeitos a limitações e erros!

Ao longo da vida, porém, muitas vezes esquecemos das cláusulas desse contrato... e sofremos quando com essas realidades nos deparamos.  Por sermos imperfeitos, precisamos aceitar que da imperfeição da natureza humana, brotem impulsos vitais que podem às vezes prevalecer sobre o domínio racional de nossos valores e princípios. Esses impulsos podem até incitar ações das quais viremos a nos arrepender... e isso torna fundamental que aprendamos a nos perdoar, a nós mesmos e aos outros. Não somos anjos... nem somos demônios! Mas vivemos a natureza da condição humana, basicamente imperfeita e falível.  Quando afirmamos que o ser humano é imperfeito, confessamos sua finitude e limitação... mas afirmamos também que ele é  aperfeiçoável!

Partimos daqui, deste contrato fundamental da vida humana! E, caminhando a partir daí, algumas conclusões  vão chegando:

  • Crescer... não significa deixar de ter problemas... mas aprender a lidar com eles! A pessoa madura continua tendo problemas e limitações, tendências negativas e egocêntricas, impulsos vitais  que podem reclamar ações conflitantes com  seus valores e princípios. A diferença entre a pessoa imatura e a pessoa madura, é que a primeira vive dominada por seus mecanismos inconscientes, enquanto a segunda tem consciência deles e sabe lidar com eles de forma livre!
  • Podemos então dizer que ‘crescer é substituir um conjunto de problemas, por outro conjunto melhor de problemas’!
  • Torna-se necessário sempre repetir que todos os sentimentos e emoções são   lícitos! O modo de canaliza-los, pode ser adequado ou não!

Ser humanos! Aceitar que assim somos e que essa é condição para sermos felizes! Não somos anjos nem somos demônios! Não somos deuses! Somos humanos! E da forma como lidamos com essa realidade, depende nossa felicidade! Aprender a lidar com os problemas, pois evitá-los não depende de nós! Saber que nesse capítulo aí, o problema não é o problema, mas a forma como encararmos o problema.. pois, se há problemas que não podemos mudar, talvez dependa muitas vezes de nós a forma como encaramos esse problema!

A tentação de querermos ser deuses... é herança antiga  que a humanidade vem herdando, lá desde os ‘primeiros pais’... Ela nasce certamente do traço de infinito que nos marca e nos leva a ir mais além! Mas nunca poderemos querer dar um passo maior do que nossas pernas, que sempre assentam no chão do humano, por si mesmo limitado e imperfeito!

‘Porque Ele sabe de que barro somos feitos e se lembra que apenas somos pó’- assim fala o Salmo 103, para dizer que Deus nos conhece e nos aceita, humanos, do jeito que somos! Nós é que nem sempre assim nos entendemos e nos aceitamos

Perante  essa realidade, lembramos a Parábola dos dois Lobos: O menino chegou com raiva junto do velho avô índio  e perguntou:

- Vovô, estou com muita raiva de um amigo que fez uma grande injustiça comigo...

E o velho avô, paciente, falou assim:

-  Vou contar uma história para você: eu mesmo, muitas vezes, senti um grande ódio dentro de mim, em relação aquelas pessoas que me fizeram mal... Mas o ódio corrói você e não fere seu inimigo. É como se você tomasse veneno, desejando que seu inimigo morra.  Lutei muitas vezes contra estes sentimentos. É como se existissem dois lobos de mim: um deles é bom e manso, paciente e misericordioso, vive em harmonia, acolhe e compreende as fraquezas dos outros, cuida e apóia, ajuda e ama...o outro lobo, é cheio de ódio e de raiva, briga por tudo e  deseja sempre a vingança, castiga e machuca, ataca e ofende, critica e pune... este lobo não consegue pensar, porque a raiva e o ódio são muito grandes. Sua raiva é inútil, porque não muda nada. É difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim... porque os dois lutam para dominar meu espírito...

- E qual deles vence, vovô?! – perguntou o menino apreensivo.

O velho índio sorriu... e respondeu baixinho:

- Aquele que eu alimento mais dentro de mim!

E podemos ir encerrando, com o lembrete das duas regras para viver bem:
Primeira: Não se preocupar com as coisas pequenas
Segunda: Todas as coisas são pequenas!

Podemos lembrar também que, nós humanos, somos como as estrelas do mar; ressecadas na beira da praia, se colocadas na água, renascem! Ser humano... também tem essas vantagens... é bom lembrar para os mais pessimistas!

Mas também é bom lembrar, para aqueles que tendem a   deitar-se ‘eternamente em berço esplêndido’: ‘Aquele que vê o mundo aos cinqüenta anos, da mesma forma que o via aos vinte, desperdiçou trinta anos da sua vida’

Domingos Cunha, CSh.

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