Há três mitos que da Grécia antiga nos trazem símbolos fortes! Também na área do crescimento humano esses mitos nos proporcionam luzes! A partir desses mitos, olharemos ‘tentações’ fortes que se nos apresentam neste campo.
Também no campo do crescimento humano, este mito se faz tentação: quando acreditamos em soluções mágicas, em segredos que por si mesmos transformariam nossa personalidade num passe de mágica! Quando acreditamos que esse ‘fogo mágico’ poderá transformar todos os nosso defeitos e dificuldades, tornando-nos deuses! Quando acreditamos que esse ‘fogo mágico’ será capaz de fazer a alquimia que nos faz deixar de ser humanos – frágeis, limitados, vulneráveis... para nos tornarmos como ‘deuses’: invulneráveis, perfeitos, onipotentes!
Talvez esta seja a maior de todas as tentações na caminhada do crescimento! A tentação do esforço pessoal, a tendência do auto-controle, da censura, da cobrança cega... perseguindo a perfeição pessoal! Carregamos nossos pesos, o peso de nossas marcas pessoais... lutamos contra elas, na ilusão de destruí-las... querendo chegar no topo da montanha, que resolvemos chamar de ‘perfeição’! Conseguimos, durante algum tempo, carregar esses pesos, na base do esforço. Concentramos aí nossas energias sobre-humanas. Alguns resultados nos animam a continuar... mas, quando estamos chegando no topo da montanha... o descalabro se torna inevitável: acabamos destruídos pelas energias que tentamos reprimir durante tanto tempo! A procissão de penitentes é engrossada continuamente continuamente pelos neuróticos que se entregam à ilusão de Sísifo!
Nosso tempo idolatrou a figura de Narciso e a elevou ao mais alto dos altares! O narcisismo é cantado em verso e prosa como caminho de realização e felicidade! Fechar-se em si mesmo e buscar no seu egocentrismo a sua identidade última! O individualismo acima de tudo e antes de tudo. E os narcisos modernos se deleitam satisfazendo seus próprios caprichos, satisfazendo suas necessidades sem critério, vivendo o prazer imediato a qualquer preço, descartando tudo o que cheira a sofrimento e pressupõe encarar a dor. É a tentação de viver ao sabor dos sentimentos, de curtir sem conseqüências e responsabilidade para com o futuro. Crescer... não interessa! Viver... do jeito que der – isso é tudo! Por hoje... e hoje é tudo!
Andam por aí, as pessoas do nosso tempo! Andamos por aí, todos nós humanos, para quem ser humano é realidade difícil de ser aceita! Fomos Prometeu e fomos Sísifo... e muitos acabamos nos tornando Narcisos!
Mas terá que ser assim... sempre que enfrentamos a tarefa do auto0-conhecimento e do crescimento humano? Estamos condenados a acabar voltados para nós mesmos... depois da frustração de Sísifo e de Prometeu?!
Certamente que não! Podemos experimentar um outro caminho: ser humanos!
Me lembro daquela menina que, anos depois de prolongado esforço pessoal tentando se aperfeiçoar... chegou arrasada e descarregou de uma vez: ‘me diga! Me diga por favor: porque isto aconteceu comigo? Porque eu estava indo tão bem e tive esta recaída?’ E eu disse maliciosamente:’Não sei... com você, não sei... nós, humanos, somos assim!’
Me lembro também daquele rapaz que passara anos grandes de sua vida rezando para que Deus dele tirasse o medo...e quando acabou se resignando, por sentir que Deus não ouvira suas preces e isso era sinal de que Deus não o queria no lugar a que se sentia chamado... desabafou comigo o peso de seu fardo! E eu lhe disse apenas: ‘Você é muito pretensioso! Deus não tirou o medo de Jesus... e iria tirar de você?’ ... e ele acabou percebendo que não precisava deixar de sentir medo para ser feliz e seguir seu caminho!
Ao nascer, ‘assinamos ‘ um contrato irreversível e irrevogável. Nesse contrato, além de outras cláusulas, reza que, ao longo de nossa existência nos depararemos com obstáculos e problemas, como doenças, reveses de toda a sorte, acidentes e outros imprevistos. No mesmo contrato, fala ainda que, como seres humanos, somos por definição imperfeitos e contraditórios; sujeitos a limitações e erros!
Ao longo da vida, porém, muitas vezes esquecemos das cláusulas desse contrato... e sofremos quando com essas realidades nos deparamos. Por sermos imperfeitos, precisamos aceitar que da imperfeição da natureza humana, brotem impulsos vitais que podem às vezes prevalecer sobre o domínio racional de nossos valores e princípios. Esses impulsos podem até incitar ações das quais viremos a nos arrepender... e isso torna fundamental que aprendamos a nos perdoar, a nós mesmos e aos outros. Não somos anjos... nem somos demônios! Mas vivemos a natureza da condição humana, basicamente imperfeita e falível. Quando afirmamos que o ser humano é imperfeito, confessamos sua finitude e limitação... mas afirmamos também que ele é aperfeiçoável!
Partimos daqui, deste contrato fundamental da vida humana! E, caminhando a partir daí, algumas conclusões vão chegando:
Ser humanos! Aceitar que assim somos e que essa é condição para sermos felizes! Não somos anjos nem somos demônios! Não somos deuses! Somos humanos! E da forma como lidamos com essa realidade, depende nossa felicidade! Aprender a lidar com os problemas, pois evitá-los não depende de nós! Saber que nesse capítulo aí, o problema não é o problema, mas a forma como encararmos o problema.. pois, se há problemas que não podemos mudar, talvez dependa muitas vezes de nós a forma como encaramos esse problema!
A tentação de querermos ser deuses... é herança antiga que a humanidade vem herdando, lá desde os ‘primeiros pais’... Ela nasce certamente do traço de infinito que nos marca e nos leva a ir mais além! Mas nunca poderemos querer dar um passo maior do que nossas pernas, que sempre assentam no chão do humano, por si mesmo limitado e imperfeito!
‘Porque Ele sabe de que barro somos feitos e se lembra que apenas somos pó’- assim fala o Salmo 103, para dizer que Deus nos conhece e nos aceita, humanos, do jeito que somos! Nós é que nem sempre assim nos entendemos e nos aceitamos
Perante essa realidade, lembramos a Parábola dos dois Lobos: O menino chegou com raiva junto do velho avô índio e perguntou:
- Vovô, estou com muita raiva de um amigo que fez uma grande injustiça comigo...
E o velho avô, paciente, falou assim:
- Vou contar uma história para você: eu mesmo, muitas vezes, senti um grande ódio dentro de mim, em relação aquelas pessoas que me fizeram mal... Mas o ódio corrói você e não fere seu inimigo. É como se você tomasse veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos. É como se existissem dois lobos de mim: um deles é bom e manso, paciente e misericordioso, vive em harmonia, acolhe e compreende as fraquezas dos outros, cuida e apóia, ajuda e ama...o outro lobo, é cheio de ódio e de raiva, briga por tudo e deseja sempre a vingança, castiga e machuca, ataca e ofende, critica e pune... este lobo não consegue pensar, porque a raiva e o ódio são muito grandes. Sua raiva é inútil, porque não muda nada. É difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim... porque os dois lutam para dominar meu espírito...
- E qual deles vence, vovô?! – perguntou o menino apreensivo.
O velho índio sorriu... e respondeu baixinho:
- Aquele que eu alimento mais dentro de mim!
E podemos ir encerrando, com o lembrete das duas regras para viver bem:
Primeira: Não se preocupar com as coisas pequenas
Segunda: Todas as coisas são pequenas!
Podemos lembrar também que, nós humanos, somos como as estrelas do mar; ressecadas na beira da praia, se colocadas na água, renascem! Ser humano... também tem essas vantagens... é bom lembrar para os mais pessimistas!
Mas também é bom lembrar, para aqueles que tendem a deitar-se ‘eternamente em berço esplêndido’: ‘Aquele que vê o mundo aos cinqüenta anos, da mesma forma que o via aos vinte, desperdiçou trinta anos da sua vida’
Domingos Cunha, CSh.
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