Instituto Eneagrama Shalom


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Desci aos infernos

In, Confissões do Sábio que mora em nós

Desci aos infernos e vi que existem demônios. Há anjos também, dentro de nós! Vi que não são tão feios quanto os pintam, os chifres desses demônios. Dá para encarar de frente e segurar pelos chifres!
Ouvi um dia que ‘a religião é para aqueles que têm medo de ir para o inferno... e a espiritualidade é para aqueles que já estiveram lá’! Aprendi que assim se faz verdade, quando descendo ao mais fundo do poço, sentimos o nosso nome escrito na palma da mão carinhosa de um Deus Pai e Mãe, que de lá nos resgata para uma vida mais humana, quando nos descobrimos amados do jeito que somos!

Andei com S. Jorge enfrentando os dragões e muitos matei , mas sempre ressurgiam mais fortes! Me dei melhor com Santa Marta, que deu conta de domesticar seu dragão e ele se tornou guarda-costas para ela! Aí me lembrei de S. Paulo e entendi porque é que ‘quando sou fraco é que sou forte’...

Vi aquele velho sábio acalmar o povo na beira da praia, antes apavorado com o monstro que do mar subia todo o final de tarde e causava pânico na aldeia... e quando o velho sábio conseguiu que o povo, sentado na beira da praia, olhasse o monstro emergindo e dele falasse... o monstro sumiu por onde tinha surgido, porque os fantasmas existem enquanto neles acreditamos e por eles nos deixamos oprimir, até que, enfrentados, eles somem!

Vi aquele homem ficando cego e caindo no desespero quando a cegueira tomou conta dele definitivamente. Ouvi seu lamento e sua revolta, do fundo de sua mágoa com a vida... e vi um dia esse velho homem colocar a mão no ombro da cegueira e abraçá-la... e nesse dia, embora continuando cego, seu rosto voltou a sorrir!
Compreendi o enigma de Carl Jung, quando dizia que ‘o ser humano não se torna iluminado ao imaginar figuras de luz, mas ao conscientizar-se da escuridão’ e ouvi Caetano Veloso cantando na rádio que ‘cada um sabe a dor e a alegria de ser o que é’...

Dediquei-me à arte de domesticar dragões e alguns dei conta de domesticar... embora um dragão sempre seja um dragão e sempre carregue em si uma ameaça que pode emergir a qualquer momento. Isso me fez pensar que sempre é bom estar com ‘um olho no gato e outro no peixe’, e depois me lembrei novamente do grande psicólogo Paulo de Tarso, graduado na escola do amor de Deus, quando dizia que ‘quem está de pé, cuide para não cair e quem caiu cuide de se levantar’! Batizei muitos dragões, pois convém dar-lhes um nome para que aprendam a conhecer a nossa voz!

Andei um tempo na companhia daquele velho monge que vivia mudando de convento, por nunca se sentir bem e perceber que ao fim de um tempo suficiente, tudo ia mal. E um dia vi o monge assustado, quando depois de arrumar a mala para se mandar em busca de novo convento, ouviu um estranho dizer do fundo de seu quarto: ‘eu sou o seu Ego... e se você está fugindo de mi, não adianta, porque para onde você for eu também vou’’!

Essas andanças me ensinaram que o problema não são os problemas, mas a maneira como encaramos os problemas! E depois percebi que ‘crescer é substituir um conjunto de problemas por outro conjunto melhor de problemas’. Foi bom encontrar essa resposta, para entender que a pessoa madura continua tendo problemas e o amadurecimento significa tão somente que aprendeu a lidar com eles!

Nunca engoli direito aquele conselho do ‘sede perfeitos como p Pai do Céu é perfeito’, por não entender como poderia Ele querer perfeito o que Ele mesmo havia criado de barro... mas depois me traduziram essa frase por ‘sede santos como o Pai do Céu é santo’ e explicou, a própria vida, que ser santo é bem diferente de ser perfeito! Aí me lembrei de grandes santos, conscientes de sua santidade e ao mesmo tempo se confessando grandes pecadores! Perfeitos não seriam, por terem a imperfeição do pecado... mas eram santos, por assumirem suas fraquezas e no meio delas se experimentarem profundamente amados por Deus! Ficou então combinado como coisa aceita e clara, que perfeição era esforço nosso e ilusão de super-homem, enquanto santidade era ação de Deus em nós!

E nessas idas e voltas, no meio de trevas e luz, Deus me ensinou o enigma do caminho de ser: crescer é descer e para ser mais é preciso ser menos!

Concordei então que era bom ser humano... pois até o próprio Deus achou bom tornar-se humano! Li no livro do Eclesiastes que não adianta a gente querer endireitar o que o próprio Deus criou torto... e aí aprendi a ver a beleza que há na imperfeição e a perfeição que mora no limitado!

Comi o pão que o diabo amassou, mas acabei descobrindo, no meio de suor e lágrimas, que não adianta viver mendigando dos outros ou das situações ou daquilo que fazemos, o amor e a segurança e o reconhecimento que só nós mesmos poderemos nos dar... ou aceitar gratuitamente ao nos deixarmos mergulhar na experiência do amor de Deus.

No meio de muita prosa, encontrei um verso de Fernando Pessoa dizendo assim: ‘a criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; mas hoje, vendo que o que sou é nada, quero ir buscar quem fui onde ficou’! E achei lindo, como caminho a ser feito cada dia, sabendo que ‘o caminho se faz caminhando’!

Um dia alguém me disse que há duas regras de bem viver: a primeira reza que não devemos nos preocupar com as coisas pequenas e a segunda decreta que todas as coisas são pequenas!

Acabei aceitando, não sem antes ter resistido muito, que vemos os outros não como eles são, mas como somos e que há alguma coisa errada se estamos sempre certos!

Quando fui conhecendo aos poucos um pouco do mistério que eu sou, entendi que não devemos exaltar nossos ‘dons’ nem dramatizar nosso ‘pecado’! Cansei de ouvir Zé Ramalho cantando que ‘sentimento amordaçado volta a incomodar’ e depois aprendi que todo o sentimento é lícito... a maneira de canalizá-lo é que pode ser adequada ou não... e aí S. Paulo deu pitaco novamente, dizendo que, ‘se estiveres com raiva, toma cuidado para não cair em pecado’! Experimentei que deixar fluir os sentimentos que incomodam e dar-lhes nome e expressão... é segredo para viver em paz cá por dentro deste mundo encantado!

Acabei encontrando mais um velho pergaminho do apóstolo Paulo, dizendo que somos vasos de argila carregando um tesouro... e ouvi o salmista cantando que Deus sabe de que barro somos feitos e se lembra que apenas somos pó!

E no meio desse barro frágil e cheio de rachaduras, encontrei um velho contrato que eu mesmo assinei ao nascer e vi nele duas cláusulas que me chamaram atenção, por quase sempre as ter ignorado: os problemas e os reveses fazem parte da vida, assim como os altos e baixos; por sermos humanos, somos imperfeitos e falíveis, vulneráveis e frágeis! Essa coisa de sermos imperfeitos ainda me deixou ‘encucado’ durante um bom tempo... mas um dia acordei feliz por descobrir que ao dizer que somos imperfeitos, falamos também que somos aperfeiçoáveis!

Me contaram que Maomé havia dito: ‘se te conheces a ti mesmo, conheces a Deus’! E lembrei que também Tereza de Ávila falou que ‘a melhor maneira de se chegar ao conhecimento de Deus é através do conhecimento de si mesmo’!

E enquanto termino estas divagações pelas minhas memórias, ouço no pé do meu ouvido Belchior cantando que ‘viver é melhor que sonhar’... e me lembro que Milton Nascimento também canta ‘já não sonho, hoje eu faço com meu braço meu viver’. Mas, eis que de repente, me veio lá da fonte uma vontade de implicar, dizendo que ninguém vive sem sonho e que o sonho, se é para ser sonho, que seja grande! No mesmo canto ouvi dizer que ‘qualquer canto é menor que a vida’, mas lembrei do outro poeta dizendo que ‘o sonho comanda vida e sempre que a gente sonha o mundo cresce e avança’...

Hoje eu não brinco de ser deus, invulnerável e onipotente... mas assumo que sou humano e isso me ensinou que o ser humano tem asas e é capaz de voar, sem tirar os pés da terra e do barro de que ele é feito!
Mas... para chegar a voar, foi preciso ter descido aos infernos!

Domingos Cunha, CSh.

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