Aquela moça me perguntou, do fundo de sua angústia:
- Eu estava tão bem... eu estava conseguindo... e por que eu tive esta recaída?
- Nós, humanos, somos assim... – respondi eu, com um toque de ironia!
E continuei: -Não sei você... mas nós, humanos, somos assim...
Quando lá no Gênesis nossos ancestrais quiseram ser como Deus... talvez aí se prefigurasse nossa dificuldade de aceitar a condição humana! Vivemos querendo provar da árvore da ciência do bem e do mal, para sermos juizes e senhores absolutos... ou andamos construindo torres de babel para chegar até ao céu, afirmando nossa onipotência...ou nos sentimos, como Caim, juizes de nossos irmãos...
É difícil aceitar nossa condição de criatura!
Talvez tenhamos sido cobrados para ser deuses... e talvez até em nome de Deus tenham cobrado de nós essa perfeição que só a Deus pertence. Assim pensavam também os fariseus... e essa hipocrisia opressora Jesus sempre procurou desmascarar.
Quando, no jardim do Éden nossos primeiros pais pecaram, sentiram vergonha e se esconderam de Deus, por se julgarem imperfeitos para serem olhados por Deus. Mas esse problema era apenas problema deles... pois Deus, que em nada se sentiu alterado pelo pecado deles, na mesma hora, pela brisa da tarde, como de costume, chegou no jardim para passear com eles... (Gn. 3, 7-10).
No mesmo Gênesis (8, 21-22), depois do dilúvio, se afirma esta mesma compreensão de Deus: O Senhor aspirou o suave odor e disse consigo mesmo: “Nunca mais tornarei a amaldiçoar a terra por causa dos homens, pois a tendência do coração humano é má desde a infância. Nunca mais tornarei a castigar todos os seres vivos como acabei de fazer. Enquanto a terra durar, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais hão de acabar”.
Em Eclesiástico 18, 8-13 se compreende já este jeito de ser de Deus: ‘Que é o homem, e para que serve? Qual o bem e qual o mal, que nele existe? O número dos dias do homem é, no máximo, cem anos; para cada um é imprevisível o tempo do sono da morte. Como gota d’água do mar e como grão de areia, assim estes breves anos, frente à eternidade. É por isso que o Senhor usa de paciência com eles e sobre eles derrama sua misericórdia. Vê e reconhece que seu fim é miserável, e por isso multiplica seu perdão. A misericórdia do homem se exerce para com seu próximo, e a misericórdia do Senhor para com todos os viventes. Ele repreende, instrui, ensina e conduz, como o pastor, o seu rebanho.’
O Salmo 103 fala desta mesma compreensão que Deus tem do ser humano, em sua fragilidade e suas contradições: ‘Ele perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. Ele resgata do fosso tua vida e te coroa de misericórdia e compaixão. Ele nutre com fartura teu vigor e te rejuvenesce como a águia. O Senhor é compassivo e clemente, lento para a cólera e rico em misericórdia. Não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre. Não nos trata segundo nossos pecados nem nos paga segundo nossas culpas. Quanto se elevam os céus sobre a terra, tanto prevalece sua misericórdia pelos que o temem. Como um pai sente compaixão pelos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem, porque ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó. Mas a misericórdia do Senhor é, desde sempre e para sempre...’
Deus entende que somos humanos... porque assim nos criou e fez assim por causa do muito amor que nos dedica. E tanto assim Deus entende e valoriza esse jeito de ser humano, como obra de suas mãos e sopro de seu carinho, que o próprio Filho seu, achou por bem assumir a condição humana. Deus achou bom ser humano! Só nós custamos a achar isso bom...
E a Palavra se fez carne e habitou entre nós... (Jô.1, 14). E achando-se na condição humana, ele habitou onde a condição humana se revela mais fraca: nasceu como os mais pobres entre os pobres, à margem das rodas sociais; conviveu com aqueles onde a humanidade se mostra mais sombria por lhe ser negado o brilho de ser, como doentes e pobres, ladrões e subversivos, prostitutas e excluídos de toda a sorte; escolheu por companheiros e seguidores gente sem condição e sem prestígio; morreu fora dos muros da cidade, condenado como um fracasso, excluído, entre os excluídos...
Ele aceitou a condição humana até às últimas conseqüências. Sentiu fome e sede, ingratidão e indiferença, rejeição e revolta... sentiu medo e angústia, abandono, traição... sentiu a tentação do poder, a atração do ter e o fascínio do prestígio e da fama... emocionou-se com as crianças e se maravilhou com as flores e as aves do céu. Teve compaixão e ternura pelos pobres e pequenos, colocando-se na pele de todos os que sofrem. Chorou e sentiu-se só, entristeceu-se e andou sem ter onde reclinar a cabeça, foi incompreendido e vendido, humilhado, condenado, assassinado...
E Deus o ressuscitou... para manifestar que a última palavra sua acerca do humano, é a vida é plenitude, pois essa é a vocação maior, que faz ir além do limite, da fraqueza e da impotência.
S. Paulo, seguidor desse Cristo e mestre da alma humana, também assim entendeu e falou, por assim ter experimentado. ‘Foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, que me esbofeteia e me livra do perigo da vaidade. Três vezes supliquei ao Senhor que o afastasse de mim. Mas ele me respondeu: “Basta minha graça porque é na fraqueza que a força chega à perfeição”. Portanto prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Pois quando me sinto fraco, então é que sou forte. (2Cor.12, 7-10). O mesmo Paulo entendeu a tensão entre luzes e sombras que dentro dele operava e tranquilamente a assumiu: ‘Sei que em mim, isto é, na minha carne, não mora o bem: pois querer o bem está em mim mas não sou capaz de fazê-lo. Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero. Se faço o que não quero, já não sou eu que faço e sim o pecado que mora em mim. Por conseguinte encontro em mim esta lei: quando quero fazer o bem é o mal que se encontra em mim. No íntimo de meu ser amo a lei de Deus. Mas sinto nos membros outra lei que luta contra a lei do espírito e me prende à lei do pecado que está nos meus membros. Infeliz de mim! (Rm. 7, 18-24). Por isso também ele foi capaz de compreender os sentimentos dos outros e aceitá-los com naturalidade, aconselhando de forma sadia, sem repressões: ‘Mesmo na raiva, não pequeis. Não se ponha o sol sobre vosso ressentimento’ (Ef. 4, 26).
Por isso entendemos que mesmo Paulo fale da sabedoria de Deus, que escolhe a fraqueza para nela manifestar a força: ‘Porque a doutrina da cruz é loucura para os que se perdem, mas é poder de Deus para os que se salvam. Consoante está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes . Onde está o sábio? Onde o letrado? Onde o pesquisador das coisas deste mundo? Não transformou Deus em loucura a sabedoria deste mundo? Uma vez que na sabedoria de Deus o mundo não o reconheceu pela sabedoria, aprouve a Deus servir-se da loucura da pregação para salvar os que crêem. Porque os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, enquanto nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos. Porque o que se julga loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais poderoso do que os homens. E, senão, irmãos, olhai quem foi chamado entre vós; pois não há muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Antes, o que o mundo julga estulto, Deus escolheu para confundir os fortes; e o vil e desprezível aos olhos do mundo, o que não é nada, Deus escolheu para destruir o que é, para que nenhum mortal se glorie diante de Deus’(1Cor. 1, 18-30).
Tiago, também ele entendeu e falou que no ser humano moram opostos e advertiu que ninguém precisa buscar outras justificações fora de si para se desculpar pelo mal que pratica: ‘Cada um é tentado pela própria concupiscência que alicia e seduz.’(Tg. 1, 14).
Assim nos ensinam as Escrituras e assim o sabemos por experiência... embora muitas vezes tudo isso seja em nós reprimido, em nome de uma exigência de perfeição opressora e mutilante, que nos acostumaram a buscar... em nome da tentação de querermos ser deuses... não aceitando a condição de criaturas!
Enquanto não entendermos e aceitarmos essa realidade humana, andaremos lutando contra nós mesmos, brincando de ‘ser deuses’... destruindo e sendo destruídos, sem poder experimentar a felicidade de ser criaturas!
A parábola do velho índio assim nos ensina: O menino chegou com raiva junto do velho avô índio e perguntou:
- Vovô, estou com muita raiva de um amigo que fez uma grande injustiça comigo...
E o velho avô, paciente, falou assim:
- Vou contar uma história para você: eu mesmo, muitas vezes, senti um grande ódio dentro de mim, em relação aquelas pessoas que me fizeram mal... Mas o ódio corrói você e não fere seu inimigo. É como se você tomasse veneno, desejando que seu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra estes sentimentos. É como se existissem dois lobos de mim: um deles é bom e manso, paciente e misericordioso, vive em harmonia, acolhe e compreende as fraquezas dos outros, cuida e apóia, ajuda e ama...o outro lobo, é cheio de ódio e de raiva, briga por tudo e deseja sempre a vingança, castiga e machuca, ataca e ofende, critica e pune... este lobo não consegue pensar, porque a raiva e o ódio são muito grandes. Sua raiva é inútil, porque não muda nada. É difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim... porque os dois lutam para dominar meu espírito...
- E qual deles vence, vovô?! – perguntou o menino apreensivo.
O velho índio sorriu... e respondeu baixinho:
- Aquele que eu alimento mais dentro de mim!
Ser humano é condição de viver... É condição para ser feliz... É condição para crescer... É condição para ser santo... É condição para ser divino... e talvez, a arte de ser humano consiste nisso: aprender a alimentar esse lobo bom que existe dentro de nós!
Por que temos dificuldade em entender tudo isto? Porque em nós mora também a semente do infinito, um princípio de transcendência, um toque de onipotência... muitas vezes o absolutizamos! Muitas vezes o entendemos como ponto de partida e não como um elemento do caminho, junto com a imanência que somos também! Por isso sofremos quando não conseguimos ser onipotentes... quando não conseguimos resolver todos os problemas, nossos ou dos outros.
Mas não se chega à transcendência, sem passar pela imanência... não se chega ao céu, sem passar pela terra... não se chega ao divino sem passar pelo humano... A tensão entre essas duas dimensões, é que nos faz inteiros!
Nós, humanos... somos assim!
Domingos Cunha, CSh.
A arte de domesticar cachorros | A parábola da jovem zulu | A parábola do bom samaritano e o Autoconhecimento | A sabedoria do Oásis Novo | Desci aos infernos | Nós humanos | O beija-flor de gelo | O mito da maturidade | Os 10 mandamentos do crescimento pessoal | Os 10 mandamentos do Eneagrama | Peregrino de mim
Rua Lopes Filho, 303 – Parquelândia -
60455-670 - FORTALEZA - CE - BRASIL
Tel: (85) 3281.1085