Tiago M. Sales
Médico. Residente de Psiquiatria do Hospital Mental de Messejana – HSMM, Fortaleza – CE.
A mente humana guarda mistérios ainda não desvendados por estudiosos e cientistas. A área da psiquiatria, atualmente, caminha de forma bem lenta em direção aos conhecimentos neuropsicopatológicos, baseando-se principalmente em hipóteses psicoterápicas, ensaios clínicos com fármacos e evidências de casos reais e estudos. Nenhum desses métodos de evolução da ciência psiquiátrica é exato, mostrando-se incompletos pela falta de informações plausíveis ou pouca resolubilidade prática. Dessa forma, a psiquiatria moderna não conseguiu sanar completamente as dúvidas pertinentes ao processo de saúde mental em um contexto médico, social e cultural.
Inúmeros são os ramos psicológicos que tentam explicar o ser humano e o seu funcionamento. Dentro desse universo, encontramos as mais variáveis áreas de estudo do mapa mental, sejam científicas ou esotéricas, ocidentais ou orientais, subjetivas ou pragmáticas. O eneagrama surge nesse contexto como, além de um processo de auto-conhecimento, um misto de ciência e filosofia que tenta explicar o homem e o porquê de suas imperfeições. Por conseguinte, acaba por revelar um caminho, uma trajetória de condutas e aprendizado que ambiciona levar a uma evolução pessoal.
O que a psiquiatria fala sobre o eneagrama? A grande verdade é que por enquanto nada pode ser dito pela psiquiatria em relação ao eneagrama. O contato entre essas duas áreas é muito recente, de forma que existe um comportamento de duas crianças que, enquanto se desenvolvem, estranham-se por não se conhecerem. A psiquiatria como ciência médica tende a incorporar o espírito socrático de gerar conhecimento, não reconhecendo nenhuma verdade que não seja previamente provada pelo método científico. O eneagrama, por sua vez, aparenta querer se construir sozinho, como uma ciência inovadora que ainda não gerou intersecções com outras áreas do saber.
As duas áreas não são brigadas, apenas resistem uma a outra devido a inércia da lentidão com que evoluem.
Projetando uma ponte para o futuro, acredito que dentro de pouco tempo, a psiquiatria, ou pelo menos o seu ramo mais receptivo, abrirá uma porta para uma avaliação sobre o eneagrama, considerando seus princípios e dogmas, ponderando sobre sua aplicabilidade e resultados, creditando seus valores benéficos e criticando suas falhas. Esse movimento é completamente lógico e salutar, uma vez que é necessário uma investigação plausível e em caráter científico para que todas as características positivas do eneagrama possam ser colhidas, ajudando assim a construir uma psiquiatria mais abrangente e resolutiva.
Claudio Naranjo, psiquiatra chileno, pode ser usado como um exemplo extremamente satisfatório para demonstrar a aproximação da medicina psiquiátrica com o eneagrama, sendo ele um expoente do estudo e evolução dessa arte no ocidente.
Por sua vez o eneagrama também deve evoluir para conectar-se com outras áreas que estudam os processos psicológicos da mente humana. O curso natural que ele deve tomar será o de aprofundar o conhecimento vigente sobre a psique, tornando os obscuros e incompreendidos mapas mentais mais palpáveis à nossa perspectiva.
Na base da filosofia dessa arte milenar, já encontramos simbioses com modernas práticas psicoterápicas, como a compreensão dos pecados de raízes dos nove tipos através de traumas sofridos na infância, ou do mecanismo de hipo ou hiperestimulação no processo educacional, aspectos bastante abordados na psicanálise pós-freudiana; o uso de técnicas comportamentais de confronto dos conflitos interiores, abordagem utilizada pela terapia cognitivo-comportamental americana; o manejo animado dos exercícios do eneagrama através da teatralização e da manipulação do corpo, estratagemas utilizadas pelo psicodrama; além de outros exemplos.
Torna-se fundamental perceber a já evidente similaridade entre essas duas ciências aqui mencionadas. Mesmo que elas, na maioria das vezes, não trafeguem a mesma rota ou falem a mesma língua, ambas pretendem chegar a um ponto comum de compreensão da mente, alargando as possibilidades da prevenção do sofrimento psíquico e trabalhando em propostas curativas para patologias do cérebro e da alma. Desta forma, como poderiam essas duas artes irmãs, as quais possuem objetivos tão semelhantes, tornarem-se inimigas?
Parafraseando Shakespeare, há muito mais coisas entre o inconsciente e o comportamento do que supõe nossa vã psiquiatria. O eneagrama talvez seja a resposta.
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