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A arte de domesticar cachorros

Havia um homem que, tendo um cachorro que se achava doente, precisava dar-lhe todo dia óleo de fígado de bacalhau. Como o remédio não era muito agradável, o homem resolveu segurar a cabeça do cachorro entre as suas pernas e, apertando com firmeza, abrir a boca do cachorro e enfiar o remédio pela goela abaixo.
Todo dia era um sacrifício, porque o cachorro estrebuchava e tentava se livrar daquela tortura! Mas o homem insistia, pois queria salvar seu cachorro.
Um dia, o homem se distraiu e, quando administrava o remédio, o cachorro conseguiu se livrar dos joelhos que o seguravam e o remédio acabou se derramando no chão!
E, qual não foi a surpresa daquele homem quando viu o cachorro vindo lamber o remédio que havia caído no chão! ... afinal, não era o remédio que ele detestava, mas apenas o modo como ele era administrado!

Esforço...talvez você esteja cansado de fazer! E cansou de, tanto esforço tendo feito, só ver os problemas aumentando! A tentação do desânimo talvez já tenha batido na sua porta, por achar que não vale a pena, pois tentar já tentou e muito! Mas os problemas continuam...e você acaba achando que tem sido em vão todo o esforço feito...
Tudo bem! Mas talvez o esforço tenha sido feito na direção errada! Ou talvez, quem sabe, a solução seja precisamente... deixar de fazer esforço! Talvez a luta seja... parar de lutar! Parar de lutar contra você mesmo!

Conta a lenda que S. Jorge passou a vida lutando contra dragões ( na linguagem das lendas, o dragão simboliza o mal, aquilo que atrapalha a vida das pessoas...). Matava um, logo aparecia outro! Mas há também a lenda de Santa Marta e também aí aparece um dragão. Mas contam que a Santa domesticou o dragão e depois, ele a seguia para onde fosse, com o um guarda-costas!
Facilmente caímos na tentação do S. Jorge... e vivemos lutando contra nossos dragões, contra nossas energias negativas, contra aquilo que nos incomoda, tentando destruir! É em vão, toda essa luta! Ainda bem, podemos dizer... felizmente, não conseguimos destruir esses dragões, pois na verdade, se assim o conseguíssemos, estaríamos correndo o sério risco de ver destruída nossa energia vital. Mas, a bem da verdade, não é tanto em vão essa tarefa a que tantas vezes nos entregamos: primeiro, conseguimos fazer com que nossos dragões fiquem atiçados e cresçam para cima de nós... pois quisemos inventar de ‘cutucar a onça com vara curta’... e aí, o problema se agiganta e toma conta de nós, por tornar-se incontrolável. Toda a energia quer expressar-se e, sentimento ou emoção reprimida, volta sempre com maior intensidade. Em segundo lugar, acabamos sempre ganhando como gratificação umas somatizações... aqui e ali vão aparecendo uns cansaços ou umas doenças sem explicação e sem diagnóstico...

Nada de ficarmos admirados! Aliás, fomos treinados e bem treinados para isso! Desde pequenos aprendemos que há sentimentos que são feios e que uma pessoa boa e educada não se pode permitir isso. Aí começamos nossa carreira bem sucedida de reprimir sentimentos e emoções. Quando esses sentimentos proibidos surgiam, logo nos sentíamos pessoas más, feias, mal educadas... e aí ficávamos com vergonha de nós mesmos, com medo de que os outros nos vendo assim nos rejeitassem... e por isso nos sentíamos culpados e tentávamos esconder, abafar, destruir, camuflar...
Ainda tivemos reforço nessa matéria... pois muitas vezes a educação religiosa que recebemos, reforçou esse mecanismo de repressão, dizendo que esses ditos cujos sentimentos ‘ feios’... eram pecado! Aí, complicou de vez! Quantas vezes rezamos até, pedindo que Deus tirasse isso de nós?! E quantas vezes, rezando em vão, acabamos concordando com o dito popular que fala ‘ quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece’?!
Também S. Paulo rezou três vezes pedindo a Deus que tirasse um espinho da sua carne... e por fim Deus lhe respondeu: ‘ basta-te a minha graça’.

Por falar em pecado... vamos olhar a origem desse termo, lá nas tradições militares, onde os arqueiros usavam essa expressão para significar ‘ errar o alvo’, atirar na direção errada.
Sim... é isso, o pecado: atirar na direção errada, investir nossa energia na direção errada, fazer esforço em determinada direção, esperando alcançar um determinado objetivo...e acabar acertando em outro alvo, recebendo um resultado que não esperávamos! Assim acontece ‘ pecado’ nessa área humana: quando investimos nossa energia tentando destruir nossos dragões: esperamos vê-los diminuir e desaparecer... mas eles não param de crescer!
Aí, a gente lembra de outra palavra relacionada com a Terminologia de ‘ pecado’: Conversão! Significa mudança de caminho, mudança de direção! E a gente se lembra agora da lenda de Santa Marta... e entende que é preciso mudar de direção e orientar nossa energia tentando domesticar o dragão!
‘ Se não podes vencer o inimigo, faz aliança com ele’ – diz o povo em sua sabedoria! Assim é verdade também neste campo, tanto ou mais que em qualquer outro!

Domesticar nossos dragões! Esse é o grande desafio! Esse é o caminho! Esse é o segredo do crescimento!
Crescer não é deixar de ser aquilo que somos... mas é sobretudo aceitar aquilo que somos!

Aprendendo a Domesticar Cachorros

Imagine que você acorda de manhã e encontra um cachorro no seu quintal! Jogaram lá o cachorro! Você não tem culpa... mas tem um problema para resolver! Não adianta fechar a porta e ignorar o problema! Ele está lá... e quanto mais tempo lá ficar assim, mais faminto se vai tornar e mais perigoso será! Vamos então encarar o cachorro! Você pode tentar ‘ botar o cachorro para correr’... é uma solução, mas você se arriscar seriamente a ser atacado e mordido pelo cachorro atiçado! Ou, quem sabe, você pode tentar domesticar o cachorro! Talvez o cachorro possa até guardar a sua casa e, tendo virado amigo do dono, para a ser muito útil para você! Vamos então investir nessa tarefa de domesticar o cachorro! Se você ficar metendo porrada no cachorro... não vai conseguir muita coisa! Se deixar o cachorro abandonado no quintal, as coisas também não irão muito longe! É preciso agradar ao cachorro: cuidar dele. Chegar perto, com jeito, falar... falar muito para ele, dar uma comida... e repetir isso muitas vezes, frequentemente... até ele se acostumar com você. Chegará o dia em que você poderá chegar bem perto, acariciar o cachorro e sentir ele dócil e amigo. Claro que você vai educar o cachorro, impondo limites, estabelecendo regras de conduta... ele precisa saber que você controla a situação, mas isso nunca sem antes você conquistar a confiança dele!

Pois bem... se assim se domesticam cachorros, também assim se domesticam dragões!

Não ignore seus dragões nem brigue com eles! Isso você já fez demais e nem deu certo!
Encare seus dragões, aproxime-se, lentamente, e converse com eles, numa boa! Crie com eles uma relação de proximidade e confiança. Não tenha medo, mas respeite seus dragões! Vá chegando cada vez mais próximo, acaricie seus dragões e abrace! Faça um pacto com eles, estabeleça regras e limites... deixe claro que você é sujeito dessa história e a você pertence comandar o rumo das coisas. Mas leve seus dragões do seu lado, como companheiros e amigos! Afinal, eles têm força e por isso podem ser a sua força!

Domesticar! Quem aprender essa arte... terá descoberto o segredo da harmonia e o princípio da felicidade!

‘ A Luta é... para de Lutar’!

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