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PARA QUE VIVER?

COMPARTILHAMENTO

 

Ainda não havia Baleia Azul... mas já havia jovens e no horizonte deles já havia vazio e sem sentido. O suicídio entre adolescentes e jovens já era campeão nas estatísticas não divulgadas e esquecidas pelas manchetes. E os jovens já se perguntavam para que viver? E como escolher, aos quinze ou dezesseis anos, o que vai fazer ao longo da vida toda? Que mais, além de angústia e sem sentido, indiferença e desencanto poderá habitar o coração de quem olha para o presente e se pergunta para que viver e olha para o futuro sem enxergar horizontes que façam a vida valer a pena?

Tem aquela piada do português que foi chamado para fazer o reconhecimento do corpo de um amigo no IML. Você conhecia bem o falecido? Pode nos ajudar a identificar o corpo? - perguntaram. Sim, éramos muito amigos - respondeu o português. Então você teria conhecimento de uma característica bem particular do seu amigo?  Com certeza - respondeu o português.  Ele era gago!

É uma verdade, sem dúvida, mas que naquela situação, não servia para nada, na identificação do corpo.

Que propostas e respostas são apresentadas aos jovens?!

No meio de tantas pessoas e coisas e instituições que se aproveitam desse vazio existencial e fazem dos jovens mercadoria fácil e rentável... há também velhas respostas cheias de boa vontade, de conteúdo verdadeiro, sem dúvida, mas que não servem para nada ou quase nada, nestes tempos de falta de sentido existencial.

Essa inquietação andou rodeando o coração durante um tempo longo e se misturou com algumas intuições que já por lá andavam. O autoconhecimento como porta de entrada no universo da interioridade humana e a mística como experiência do Amor abundante e incondicional, capaz de saciar os vazios existenciais, se encontraram um dia e geraram, em borbulhões de estrelas cadentes faiscantes, a constelação entre Eneagrama, jovens, sentido da vida... e assim nasceu o PQV, o Projeto Para que viver, como resposta ao PQP... que tanto paira no horizonte da nossa cultura líquida. Era como se o óbvio se tornasse claro de repente e o coração sentiu que a intuição era boa. No mesmo dia o programa surgiu e a equipe se formou e o entusiasmo cresceu.  No seio do Instituto Eneagrama Shalom surgia assim o PQV, como serviço gratuito e entusiasmado aos jovens e adolescentes. ENEAGRAMA como caminho de autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal, meditação como experiência de Deus que nos habita, dois faróis fazendo luz sobre relacionamentos afetivos, resolução de conflitos, missão de vida, orientação vocacional-profissional, projeto de futuro... encontros mensais, ao longo do ano e um final de semana intensivo encerrando o projeto, como mergulho de encontro com a Essência.

Tudo foi tão natural, como se já estivesse há muito tempo escrito no coração. Planejamos a divulgação, quem nem precisou acontecer, porque o boca a boca espalhou a notícia e os jovens e adolescentes assumiram em pouco tempo as 100 vagas que foram abertas. E, na semana seguinte ao primeiro encontro, mais 20 jovens imploraram vaga e foram acolhidos no Projeto. E numa sincronicidade rápida e fácil, em várias outras cidades além de Fortaleza, outros pessoas, do IESh e não só, juntaram os sonhos para fazer real esse caminho: Brasília. Goiânia, Belo Horizonte, S. Paulo, Porto Alegre, Maceió, Aracaju e Campina Grande e depois Palmas no Tocantins. E o sonho já encontrou terra fértil também em Portugal. Em alguns desses lugares, o PQV já é realidade e em outros se estrutura para ser.

Ao entusiasmo do início se juntou a abertura e confiança dos jovens, a sede e a busca, a profundidade e seriedade, o comprometimento e os mergulhos cada vez mais profundos na interioridade do Ser. Jovens de trinta anos e adolescentes de quinze, gente das periferias e das camadas sociais economicamente mais satisfeitas, gente já formada em várias áreas académicas e atuando profissionalmente e outros em busca do que querem fazer na vida, gente de várias confissões religiosas e gente sem religião até... todos juntos e misturados, num clima onde apenas o ser humano ocupava o centro e se tornou protagonista e artista. E a cada encontro, em cantos diversos deste Brasil, o encantamento foi aumentando e a realidade foi crescendo muito além do sonho. Mesmo nos encontros mensais de quinta feira à noite, muitos jovens tendo aula ou vindos de lugares distantes, superando o trânsito louco ou o clima de insegurança nas ruas, a sala ficava cheia e o clima era profundo, surpreendentemente profundo e possibilitador de experiências marcantes.

Final de semana encerrando o ano. Encontro com a Essência. Em Brasília ou em Fortaleza, um mesmo clima, encantador e emocionante, profundo. Partilha de sinais de crescimento no relacionamento com a família e com os amigos, clareza no caminho vocacional, luz para dar sentido à vida, solução de conflitos, autoestima, compaixão por si mesmo e pelos outros, descoberta ou reencontro com a espiritualidade, num ambiente de profundidade, interesse e entrega, que raramente encontramos em trabalhos de autoconhecimento e transformação pessoal, por esse mundo afora. Gente que decidiu mudar de rumos profissionais ou teve coragem de assumir o que sempre quis ser e nunca teve coragem, dar um grito de liberdade e superar limites, acreditar em si mesmo e sobretudo descobrir o melhor de si e encontrar razões para viver e sentido para ser feliz. Descobrir a missão, antes que os outros ou a sociedade façam acreditar num missão qualquer ou coloquem a pessoa a serviço de outros interesses ou projetos. Foi encantador ouvir a partilha dessas mudanças ao longo do ano e foi emocionante chegar ao final do ano e ouvir dos jovens a vontade de continuar.

E vai continuar... cada grupo se organiza agora para, de modo mais autónomo, para continuar trilhando caminhos em busca do Sentido da vida e saboreando os horizontes da Essência, onde autoconhecimento e espiritualidade se encontram. E no próximo ano outra turma começa o Projeto.

 

Quando neste ano de 2017 celebramos 50 anos do Movimento Encontros de Jovens Shalom, que encarnou o carisma da evangelização da juventude, o PQV nasce como mais uma expressão dessa pequena semente de libertação que a Família Shalom se propõe ser no meio do mundo, na vida das pessoas, com amor preferencial pelos jovens. O autoconhecimento e a experiência de Deus, como as grandes sedes e linguagens do nosso tempo, encontram terra sequiosa e aberta na vida dos jovens e adolescentes. E, sendo fiéis na escuta de seus anseios profundos, podemos nos encantar com a seriedade e profundidade com que os jovens de hoje confiam e se entregam a projetos que sejam sérios e profundos. A maturidade que até anda rara em ambientes de pessoas adultas, aparece como tatuagem indelével na vida desses jovens que se olham no espelho de si mesmos e se perguntam para que viver.

Há cinquenta as anos, na sala do Encontro de Jovens Shalom em Angola, tinha uma pergunta na parede: Jovem, quem é você? Porque na intuição de quem começou, já se abria a trilha do autoconhecimento como caminho para Deus. Hoje, talvez não precisemos perguntar ao jovem quem ele é... pois ele já chega arrastando a angústia sob a pergunta quem sou eu?  Mas podemos colocar na sua frente um espelho... para que eles descubram quem são no melhor de si mesmos, na natureza da sua natureza, muito mais além das máscaras e limites que aprisionam... e aí renasçam com brilho nos olhos, para enxergar o sentido da vida na missão descoberta a partir do mais profundo deles mesmos.

Há vinte e três anos, quando surgiu o nosso primeiro livro de ENeagrama , o título era Quem é você? E pouco tempo depois o segundo livro perguntava no título Que Imagem de Deus é você?   E desse casamento entre a Comunidade Shalom e o Eneagrama, o PQV nasce como um fruto maduro que muitos jovens já estão saboreando e com ele saciando sua fome de sentido e seus vazios existenciais.

Partir da realidade dos jovens sempre foi a bússola ao longo destes cinquenta anos. A perplexidade perante a vida, o vazio de sentido e de valores, a cultura líquida que se esvai por entre os dedos sem preencher vazios, a perda do brilho no olhar e o para que viver... não mais como pergunta mas muito mais como constatação de desencanto, parece ser, cada vez mais, o grito silencioso que brota da realidade dos jovens. Um ano do Projeto PQV , vai mostrando que, quando aparece uma corda segura no fundo do poço, os jovens a agarram com firmeza... antes que surjam outras cordas.

As equipes do PQV, a partir da experiência do Instituto Eneagrama Shalom, colocaram a serviço dos jovens o que de melhor aprenderam, experimentaram e ensinam sobre a tradição do Eneagrama, agregando sempre outras abordagens a serviço da transformação do Ser Humano. Os jovens abriram o coração e mergulharam fundo, descobriram a compaixão por si mesmos e pelos outros e voltaram à superfície da vida, com brilho no olhar.

O melhor caminho para a experiência de Deus é o conhecimento de si mesmo - dizem todas as tradições espirituais. E esse caminho nos coloca na direção da fonte onde brota vida e vida em abundância. Essa é a Noticia Boa que chega à vida dos jovens, numa linguagem que eles entendem e num sotaque que é música aos seus ouvidos.

E se alguém disser que os jovens não estão com nada, que não querem saber de nada, que não levam nada a sério, que só querem saber de futilidades e diversão, que são superficiais e descompromissados... você pode responder - porque é verdade, que os jovens também querem coisas sérias e profundas e, quando as encontram, se encantam e se comprometem, com abertura, entrega e maturidade... de fazer inveja a muitos adultos por aí.

No início do ano, no final de uma primeira etapa de Eneagrama para os Padres e o Bispo da Diocese de Viana no Maranhão, ouvi o pesar de um padre de 86 anos, nascido na França e missionário por aqui há quase cinquenta anos: só tenho pena de não ter descoberto isto há mais tempo, pois não teria sofrido tanto. Mas ainda bem que estou descobrindo agora e ainda tenho tempo de ser feliz. É encantador ouvir noticia e ser testemunha ocular das mudanças libertadoras que este Projeto está gerando na vida de jovens, alguns tão jovens mesmo. Mas é simplesmente impossível imaginar o sofrimento que estas descobertas e experiências poderão evitar em suas vidas... e sobretudo o bem que na vida deles e através deles na vida de outras pessoas, tudo isto pode gerar. Vale a pena sonhar e o sonho maior é que todos vivam e vivam em abundância. E maior que o sonho é a alegria de poder fazer a diferença na vida das pessoas, com um gostinho especial, na vida dos jovens. E é a partir do encontro com a Essência - a presença amorosa e silenciosa de Deus no coração do Ser Humano... e a partir daí é apenas a partir daí, que a transformação e a libertação podem acontecer. O Eneagrama é apenas um mapa.

E a esperança brota, abundante, ao olhar a vida e o mundo a partir dos olhos brilhantes desses jovens. A vida vale a pena e tem sentido, quando se descobre a missão. E a missão descoberta e assumida, dá sentido à vida.

 

Domingos Cunha   Pe. Domingos Cunha, CSh.